Quadrinho bom, série ruim: Preacher

Inaugurando um “novo quadro” (de pelo menos dois episódios) aqui no blog: séries baseadas em quadrinhos cujo material original é infinitamente superior. E vamos começar com uma das minhas séries favoritas de todos os tempos.

Preacher, de Garth Ennis e Steve Dillon, foi uma série em 66 edições (mais spin-offs) publicada pela Vertigo entre 1995 e 2000. Aqui no Brasil, a publicação da série foi bastante conturbada, passando por várias editoras e só recentemente a Panini publicou a série completa, no formato de 9 álbuns de luxo.

A série é especial para mim por vários motivos. Eu li numa época em que já estava me afastando dos quadrinhos de heróis e descobrindo que havia todo um “outro mundo” neste Universo da Nona Arte, então seguramente foi um dos primeiros quadrinhos adultos que eu li na vida.

Também foi numa fase em que eu já estava questionando religião, Deus e tudo mais e esses quadrinhos me atingiram como um soco. Talvez eu acabasse indo pesquisar sobre religiões de qualquer forma, mas Preacher me deu o pontapé inicial. Não sei se a ideia de Ennis era realmente fazer as pessoas questionarem ou não. Mas para mim, ao menos, teve esse sentido.

Além disso, Ennis é como um Tarantino das HQs. Histórias lotadas de diálogo, humor negro na dose certa, sem deixar a desejar na ação. E como se tudo isso ainda não bastasse, ainda temos o arco do Santo dos Assassinos, que é uma das histórias mais fodas que você vai ter a oportunidade de ler.

Para quem não sabe, o protagonista é Jesse Custer, um reverendo em crise de fé que acaba sendo possuído por Gênesis, uma entidade que é o cruzamento entre um Anjo e uma Demônia. Como resultado, ele adquire a Voz de Deus, que pode obrigar qualquer pessoa a fazer o que ele quer.

Nisso, ele encontra sua ex-namorada mercenária, Tulip, e um vampiro irlandês chamado Cassidy. Jesse não demora a descobrir que Deus abandonou o Paraíso e os três iniciam uma jornada em busca do todo-poderoso. Eu já falei detalhadamente de cada arco aqui, mas o importante é: a série é foda demais.

Quando anunciaram, portanto, que o quadrinho iria ser adaptado para uma série de TV, vocês podem imaginar a minha empolgação, ainda que com certo receio. Saiu, então, o primeiro trailer e o visual estava belíssimo. “Ok”, pensei comigo, “vamos dar uma chance”.

Já saíram duas temporadas e a série simplesmente não decola. Parece que os roteiristas simplesmente não sabem o que fazer com Jesse desde o momento em que ele teve o corpo invadido por Gênesis.

Não me levem a mal, não sou daqueles “puristas” que acham que não deve haver modificações. Afinal, é uma adaptação. Mas, no quadrinho, cada arco segue uma lógica e a trama vai se construindo gradualmente. No seriado, tudo o que temos é um emaranhado de situações que não levam a lugar nenhum.

Uma evidência de que os roteiristas parecem não saber para que lado levar a série é o fato de terem mudado completamente a ordem das coisas. De novo, quero frisar que isso não teria problema, se fizesse sentido, mas não é o caso aqui. Misturaram o sétimo arco com o primeiro, cortaram metade do primeiro, pularam os arcos dois e três e foram direto para o quatro, e agora parece que vão voltar para o segundo. Porra. Pra quê?

Mas o que incomoda mesmo, MESMO, são os atores e os personagens. Visualmente, estão todos praticamente iguais (exceto Tulip, obviamente), em especial Cassidy e Starr, que parecem ter saído diretamente do gibi. Mas Jesse é um bobalhão egoísta e Tulip… meu Deus, é a pior de todas.

E antes que venham dizer “Ai, seu racista, você só queria uma Tulip loira, mimimi”, não. Eu acho a atriz muito boa e seu trabalho em Agents of SHIELD foi FODA. Mas o problema aqui é de roteiro, ou direção, ou os dois. Tulip é uma completa filha da puta e egoísta, o que destoa completamente de seu equivalente quadrinístico.

Aliás, os dois são. No quadrinho, os dois são parceiros, se amam de verdade e você realmente acredita nos personagens quando eles dizem “Te amo até o fim do mundo”. Na série, simplesmente não cola, porque eles só pensam em si mesmos. Não há química nenhuma entre os personagens e não há como você acreditar que duas pessoas tão mesquinhas possam se amar mutuamente, ou ao menos não com a mesma intensidade que vemos nos quadrinhos. E esse é o meu maior problema com a série.

Sim, o humor negro continua lá, levado a um nível ainda mais nonsense que no original. Mas há coisas que simplesmente não fazem sentido nenhum na trama e não havia motivo para mudar. Pegue a história do Santo dos Assassinos, por exemplo. Tão foda e tão fácil de se adaptar, mas não. Fizeram o cara simplesmente um sanguinário sem coração, uma máquina de matar sem propósito algum.

O Cara-de-Cu é outro. A história dele é repleta de reflexões fodas sobre a juventude, depressão, suicídio, Nirvana e tudo mais. Na série ele é só um babaca que ficou com a cara deformada por acidente. E o arco dele no Inferno? Adolf Hitler ajudando, pagando de bonzinho? Onde se quer chegar com isso?

Sem contar com o fato de que não tem a menor lógica ele ter ido ao Inferno para começar. Jesse usa a Voz nele dizendo “Vá para o inferno” e ele simplesmente desaparece. Ora, isso implicaria que a Voz teria poderes de teleporte, o que não é verdade. O que ele deveria ter feito era ter se matado.

Enfim, a série de TV tem tanta coisa que não faz o menor sentido que chega a ser triste, dada a qualidade do material original. Contudo, acho que vou ter que ver a terceira temporada, já que vai tratar do meu arco favorito e que mostra o passado de Jesse. Bora continuar sofrendo mais um pouco…

 

 

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