Após aquele surto inicial, é sempre bom dar aquela respirada e analisar: o filme é tudo isso mesmo?

Um dos maiores méritos do filme é também um de seus maiores defeitos: entregar o que os fãs querem. A Marvel se tornou especialista em atender a fanboyzisse quando percebeu que isso resultava em rios de dinheiro entrando para o cofrinho. Então, assim como em Ultimato: agradar os fanboys em primeiro lugar e preocupação com a história em segundo. Ou até em quinto.

Há que se entender, já que vira e mexe pipocam produções aí que apelam para a nostalgia do seu público. Stranger Things, Matrix 4, até Dexter está de volta, pelo amor de Odin. Mas há uma diferença entre fazer isso de forma bem executada, atrelada à história, e fazer isso só por fazer. Sem Volta para Casa tem um equilíbrio aí. Às vezes pende para um lado, às vezes pende para o outro.

Sim, é legal ver os vilões dos filmes anteriores de volta em cena, mas se você leu minha análise dos filmes anteriores, sabe que os maiores defeitos eram justamente os vilões, sempre com motivações rasas que não convenciam. E isso se reflete aqui, pois não há nada que os una. Perde-se, portanto, uma excelente oportunidade de fazer o Sexteto Sinistro na telona.

É claro, William Defoe está demais, completamente à vontade no papel, e ainda mais maligno do que no original. Esse sim é o vilão que o Aranha merece e o confronto com ele no prédio é o que vale o ingresso, já que toda a sequência é muito melhor do que a batalha final. Essa, justamente, por não apresentar um Sexteto coordenado, com um plano e objetivo bem definidos (e Octopus do lado dos mocinhos? Porra!!!), acaba caindo em lugar comum. É uma pena.

E claro, é divertido ver Tobey e Andrew de volta, se juntando a Tom no terceiro ato, mas a forma como isso acontece é bizarra demais. Ned como feiticeiro? O personagem sempre foi o alívio cômico da franquia, aí de repente querem dar um up nele, do nada. Não convence. E ainda querem ver ele como Duende Macabro? Eu não sei que tipo de droga esse povo tá usando, mas por mim eu nunca mais colocava ele ou a Chataya em nenhum outro filme.

Já que é pra ter fanservice, não teria sido muito mais foda ver o Tom apanhando pra burro do Duende ou do Octopus e, quando ele vai dar o golpe final, uma teia o impede. Ele olha para trás para ver de onde veio a teia e aparece o Aranha do Andrew ou do Tobey. Porra, aí sim seria demais.

E bem, o maior defeito acaba ficando por conta da história. Mexer com magia sempre é complicado e dá margem pra um monte de furos. Além da justificativa pouco plausível do Dr. Estranho invocar um feitiço de esquecimento só pra ajudar Peter Parker e seus amigos, já pipocaram aí na internet questionamentos do tipo: por que caralhos ele não fez isso antes? Por que não usou pra fazer Thanos ou qualquer um esquecerem as jóias do infinito? Por que, ao invés de esquecerem o segredo de Peter, não podia simplesmente fazer todo mundo esquecer Mysterio?

Ou seja, da mesma forma que Ultimato abre um precedente pra usar viagem no tempo pra resolver qualquer problema, aqui abre-se um precedente pra usar magia a seu bel-prazer. Fora que não fica claro o que é que ia adiantar curar os vilões antes de mandarem eles de volta para suas realidades. Já imaginou o Norman voltando, agora completamente são, um segundo antes de ser atingido pelo planador? “Não, espera, Peter, agora sou eu!”. Ooops. Too late.

E de que momento vieram os outros Peter Parker? Toda essa enxurrada de problemas justamente por conta do que eu falei no começo: fanservice primeiro, história depois. A galera pira nesse conceito de multiverso, mas eu odeio, justamente por conta dessas. Cria-se um monte de problemas que ninguém se preocupa em corrigir, deixando um monte de arestas que nunca serão podadas. E vai vendo: Dr. Estranho 2 só vai piorar a situação.

Nada disso aconteceria se, ao invés de um reboot com O Espetacular Homem-Aranha, tivessem simplesmente continuado a história. Muda o ator, muda diretor, mas continua construindo o personagem, horas. Assim já teríamos um Aranha muito mais maduro entrando no MCU ao invés do fanboyzinho do Tony Stark.

É claro, há que se reconhecer que esse é o melhor filme do Tom Holland, no qual ele finalmente amadurece, deixando a sombra do Homem de Ferro para trás e assumindo seu lugar no MCU. Quando tia May morre, ele se torna o Homem-Aranha. E quando todo mundo o esquece, ele finalmente tem a oportunidade de crescer sozinho, sem ninguém o puxando, o que fica claro na cena final, com ele balançando com seu novo uniforme feito por suas próprias mãos. De quebra, resolve-se o problema de uma galera conhecer sua identidade secreta, o que vinha se arrastando desde o primeiro Aranha do Sam Raimi.

Esse, sim, é o maior trunfo do filme e esperamos que isso se concretize no próximo. Em suma: o filme é legal, sim, é divertido, mas esses furos (e muitos outros) o impedem de ser grandioso, como deveria ser.

Palpites para o quarto?

Bem, o próprio Tom Holland falou que uma das ideias para esse filme era que fosse centrado em Kraven, o Caçador. Apesar de um vilão de pouco destaque, é ele quem antagoniza o Aranha em uma de suas histórias mais emblemáticas: A Última Caçada de Kraven.

Se tornarmos por verdadeira a ideia de continuar com o amadurecimento do Aranha a partir do final de Sem Volta para Casa, talvez fosse o momento perfeito para fazer um filme mais sombrio. A cena extra dá margem para a descoberta do simbionte, o que poderia acontecer logo no começo do filme, enquanto o Aranha perseguiria o Camaleão. Também poderíamos ter Silver Sable e o Comando Selvagem atrás do terrorista internacional aqui.

O Camaleão é preso, mas tinha um acordo com Kraven para que esse o ajudasse caso algo acontecesse (para quem não sabe, foi o Camaleão quem, nos quadrinhos, colocou Kraven na caça do Aranha pela primeira vez). Kraven, que já vinha observando o herói como um oponente digno, aceita o desafio e invade o QG do Comando Selvagem para libertar o colega.

Enquanto isso se desenrola, Peter vai aos poucos entendendo o que é o uniforme alienígena. Talvez pudesse ter uma trama paralela envolvendo a Gata Negra aqui, mas não sei se não ficaria muita coisa pra um filme só.

O Aranha fica sabendo do ocorrido, vai tentar ajudar, mas Kraven “o mata” e o enterra vivo, tomando seu lugar. Diferentemente dos quadrinhos, onde Kraven simplesmente usa um uniforme de tecido, aqui ele poderia roubar o simbionte para si. Peter fica duas semanas na cova, enquanto Kraven suja seu nome, até que finalmente consegue se libertar.

Traumatizado, ele então precisa da ajuda de Sable e da Gata para o confronto final com os dois vilões. O simbionte, claro, escaparia, deixando o gancho para o próximo filme.

Que acharam?

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