Sobre os filmes do Aranha: uma análise nua e crua

“Ai, mimimi, só falam disso agora”. Foda-se. Eu era fã do Aranha muito antes de você ter dinheiro pra ir no cinema, então eu posso falar com propriedade.

O novo filme do aracnídeo mais querido dos nerds estreou, provando que a Marvel sabe mesmo como fazer filmes divertidos com seus personagens. Fiéis, com as alterações necessárias, e que agradem tanto os fãs quanto o público em geral. Ah, mas então quer dizer que os outros filmes eram ruins? Bem, tem gente que vai dizer que “sim”, sem pestanejar. Mas vamos com calma.

Homem-Aranha (2002)

Digam o que quiserem do Aranha do Sam Raimi. O filme foi um divisor de águas. Antes, filmes de super-heróis eram toscos até o talo (salvo raríssimas exceções) e sequer se cogitava que pudessem ganhar tantos milhões quanto esse filmes ganhou. Não obstante, este primeiro filme provou que se pode, sim, fazer um filme de origem, fórmula que se seguiu nos anos seguintes à exaustão. Até demais, diga-se de passagem.

Olhando para trás, hoje, é claro que o filme tem problemas. Mas foi o primeiro, repito, o PRIMEIRO filme que realmente conseguiu transpor páginas dos quadrinhos diretamente para a telona. Ver o Aranha se balançando em teias em plena Manhattan, desviando-se das lâminas do Duende, salvando gente do perigo… só quem é fã vai saber do que estou falando. Na época, ninguém sonhava que era possível ter essas coisas no cinema, exatamente do mesmo jeito que acontecia no gibi.

Sem contar que o filme é fidelíssimo ao original. Temos o assassino do tio Bem, a velha frase “com grandes poderes vem grandes responsabilidades” (que hoje em dia ninguém mais aguenta ouvir), a relação com a tia May, com os amigos do colégio, com Harry e seu pai, a descoberta da identidade secreta por seu maior inimigo, a formatura no Ensino Médio, a ida para a cidade grande… porra, Sam Raimi contou a primeira e a segunda fase do Aranha (anos 60 e 70) em 2 horas!

E termina com chave de ouro, fazendo uma justa homenagem à uma das cenas mais emblemáticas das HQs de todos os tempos (a morte de Gwen) e o confronto final com o Duende, que termina EXATAMENTE da mesma forma que o quadrinho. Mas ok, eu dou o braço a torcer em uma coisa: o Duende é tosco pra cacete e suas motivações são meio ridículas. Problema, aliás, que se repete nos outros dois filmes, iniciando uma maldição que persiste nos filmes da Marvel até hoje: os vilões nunca são lá essas coisas.

Como eu faria diferente? Concertaria o visual do Duende, colocaria Gwen no lugar da MJ (que poderia até aparecer, mas como amiga) e faria Gwen realmente morrer na ponte. Diabos, teria espaço até pra pôr a Betty Brant como namoradinha dele no começo do filme. Ficaria perfeito.

Homem-Aranha 2 (2004)

Agora com a origem contada, Raimi teve espaço para fazer seu herói preferido enfrentar aquele que é um de seus piores inimigos e o que foi o primeiro a conseguir derrotá-lo nos quadrinhos: Doutor Octopus. Mas a trama principal do filme nem é essa. É sobre Peter Parker.

Baseando-se na clássica HQ “Spider-man No More” (que trazia inclusive a primeira aparição do Rei do Crime), Raimi conta a história sobre poder e responsabilidade. Sobre como os problemas se acumulam e é humanamente impossível conciliar a vida pessoal com a vida de super-herói. Qualquer um ficaria sobrecarregado. Sobre o que é o Homem-Aranha, senão sobre isso? Sobre fazer o certo, mesmo quando o mundo está errado? Sobre deixar a diversão de lado e sempre escolher ir atrás dos bandidos?

Além disso, o relacionamento entre ele e MJ vai sendo construído e com Harry, as coisas vão ficando mais complicadas, algo que realmente aconteceu nos quadrinhos nos anos 70. Para quem não sabe, a história em que Harry assume o manto do pai, completamente transtornado por conta do LSD (substituído no filme por álcool) foi a história em que a Marvel rompeu com o Comics Code Authority, entidade encarregada de “fiscalizar” as HQs para “proteger as crianças” de sua “influência”. Homenagem, portanto, bastante relevante.

E o vilão, bem… ficou legal. Mas poderia ter sido melhor. Eu gosto particularmente da fase Erick Larsen, em que Octopus é praticamente um gângster fodão e gênio do crime. No filme, mais uma vez, suas motivações não são lá essas coisas. O cara tem um acidente de laboratório e vira um ladrão de bancos para… o quê? Retomar o mesmo projeto que provocou o acidente? Oi?

E mais adiante, quando ele vai atrás de Harry para conseguir mais material para o projeto e Harry lhe diz que trocará pelo Aranha, Octopus aceita sem pestanejar. Ora, não teria sido mais fácil torturar Harry até conseguiu o que ele queria?

A cena do metrô é emblemática, mas ele tendo que perder a máscara só para mostrar o rosto do ator, e o povo tentando defendê-lo depois… ridículo. E a cena final, nem se fala. Octopus descobre a identidade dele e se sacrifica para salvar a cidade por conta do projeto que ele mesmo criou sair do controle. Não faz o menor sentido.

Mas ok, no geral, acho um bom filme. Como eu faria melhor? Mudaria a trama do Octopus, não o faria descobrir a identidade do Aranha (o que nunca acontece no quadrinho, exceto na Saga do Clone pouco antes dele morrer e quando ele volta, não tem recordação do fato) e certamente não o mataria. Também faltou a presença do Capitão Stacy, que poderia morrer no confronto entre os dois, como acontece no quadrinho.

Se fosse Gwen no lugar da MJ no primeiro filme, a dinâmica do Capitão com a Aranha seria ótima de ser explorada aqui. MJ poderia aparecer, mas Peter, ainda sentindo-se culpado pela morte de Gwen, relutaria em iniciar um relacionamento com ela neste momento. Mas vamos em frente.

Homem-Aranha 3 (2007)

Tido por muitos como o pior, o maior problema do filme é que Raimi acabou tendo que ceder às pressões do estúdio e o filme acabou ficando inflado demais de vilões, com um roteiro corrido demais.

Ainda assim, não acho o filme um completo desperdício. O Homem-Areia ficou muito bom, mas essa mania de todo vilão descobrir a identidade secreta dele já chega a irritar nesse ponto. E a ideia dele ter relação com a morte do tio Ben… meio nada a ver, mas ok.

Agora, tinha gente reclamando que não explicava de onde vinha o simbionte. Ora, no quadrinho levou anos… DÉCADAS até explicarem a origem do simbionte alienígena. Honestamente, isso não faz a menor diferença na trama.

Eu gosto do fato de ter aparecido o uniforme negro aqui. O segundo filme foi sobre usar o poder com responsabilidade. A questão aqui é o outro lado, sobre como o poder pode viciar e a história do simbionte permite muito bem trabalhar com isso. O problema foi Venom no final. Apesar de ser um dos meus personagens preferidos e eu querer muito vê-lo no cinema, claramente não tinha lugar para isso no filme e foi o que mais prejudicou o roteiro.

Sem contar que Eddie Brock não tem nada a ver com o personagem no gibi, se tornando um repórter babacão. E Gwen, nem se fala. Está muito longe de ser a menina meiga que se tornou o primeiro grande amor de Peter Parker. O triângulo amoro com MJ e o completo descaso de Peter com esse relacionamento vão bem longe da essência do personagem.

O que salva é a história da herança do Duende Verde, que continuou fiel aos quadrinhos até o final, e a redenção de Peter, que volta a ser o que era depois de tantas cagadas.

E, bem, uma coisa que é consenso em todos os três filmes: J. J. Jameson ficou sensacional.

O que eu faria diferente? Não colocaria Gwen nem Eddie Brock aqui, o filme é sobre Peter e Harry. Mas manteria a dinâmica da amnésia e de Harry se sacrificar no final para salvar a cidade do Homem-Areia. Também achei o Areia bonzinho demais (tal como Octopus no segundo filme) e nem preciso nem dizer, não o faria descobrir a identidade de Peter. Mas o deixaria com vontade de se regenerar, isso dá um bom gancho.

O Espetacular Homem-Aranha (2012 e 2014)

Nem vou perder muito tempo falando sobre esses dois filmes, ruins de dar dó. As únicas coisas que eu gosto no primeiro filme são o ator, que com certeza tem muito mais cara de Peter Parker que Tobey Maguire, e o lançador de teias, que nunca deveria ter sido orgânico para começo de conversa.

Mas de resto, a trama com os pais dele, os vilões, os atores… tudo é ruim demais. Para começar, não deveria se perder tempo contanto, de novo, uma história de origem. Ok, a dinâmica entre Peter e Gwen é interessante e a ideia de usar as teias como radar foi uma boa sacada. Mas de novo, o vilão sabe a identidade do Aranha. De novo, Oscorp envolvida. Ah, sério mesmo? E a cena dos guindastes no final para “ajudar” o Aranha… nem se fala.

Vamos para o segundo filme. Vilão ridículo, com motivações ridículas de novo. Oscorp no centro da trama. De novo. Harry Osrborn doidão. De novo. Sem falar que ele sequer aparece no primeiro e de repente ele e Peter são “melhores amigos”. E Gwen morre, mas a cena não tem nem de longe o impacto que deveria ter. Bem, o “Honest Trailers” meio que resume tudo isso muito melhor do que eu:

Certo, então, como fazer uma continuação melhor, aproveitando o que já fora feito? Bem, claramente, não acho que reboot seja uma opção. Poderia mudar os atores e tudo mais, mas por que não continuar a história? Eu já falei antes como eu acho que deveria ter sido, mas eu repito aqui, sem problemas:

Concordo em usar Electro, mas ao invés de usar de novo Harry, Duende, Oscorp e etc., eu colocaria também Mysterio, numa trama que incriminasse o herói de algum roubo ou algo similar. Premissa clássica nas HQs, mas que não foi de todo utilizada no cinema. Este filme giraria em torno disso e o herói teria a polícia na sua cola durante o filme todo.

Na parte 5, outra premissa clássica: Guerra de Gangues. De um lado, poderíamos ter a Gangue do Cabeça de Martelo, utilizando o Abutre como principal mercenário, e do outro, a Gangue do Rosa ou qualquer outro que utilizasse um misterioso Duende Macabro como aliado. No meio, claro, o Aranha tentando impedir que os bandidos se matassem e tentando salvar os inocentes. Tal como na HQ, a identidade do Duende ficaria incerta até o final do filme. Poder-se-ia criar um mistério acerca de Ned Leeds, Flash Thompson, Roderick Kingsley e até mesmo cogitar que seria um dos Osborn, revivido. E por que não… uma participação do Justiceiro, talvez?

Por fim, o sexto filme traria de volta os vilões dos filmes anteriores. Octopus teria sobrevivido, e reuniria Electro, Mysterio, Abutre, Duende Macabro e o Homem-Areia, regenerado, seria forçado a colaborar. Premissa básica da história que saiu por aqui em “Homem-Aranha Anual # 3”, lembram-se?

Ah, ver essa história na telona seria o equivalente aranhístico ao ver “Guerra Infinita”. Bem, sonhar não custa nada.

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017)

Não sei nem por onde começar. Os poucos minutos que o Aranha havia aparecido em Guerra Civil já tinham sido melhores que os 5 filmes anteriores, somados. E agora, uma película só dele, no melhor estilo Marvel: divertido, fiel à essência do personagem e, acima de tudo, emocionante.

Para começar, o roteiro já acerta em cheio em não ser um filme de origem. Ninguém aguenta mais saber da picada da Aranha, da morte do tio Ben e de que “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Não precisa de nada disso. Quando assistimos Peter vestindo a máscara enquanto olha seus amigos se divertindo, já fica claro que aquele é o personagem que amamos.

E não precisa de Flash Thompson, Harry Osborn e Mary Jane em todo santo filme. Os personagens não são os mesmos dos quadrinhos, mas quem se importa? Eles funcionam muito bem na história, que segue o padrão Marvel de ser muito bem construída.

Sem falar no uniforme. Uma das coisas que mais víamos nos quadrinhos (principalmente nos antigos) eram os gadgets que Peter Parker criava para auxiliá-lo no combate ao crime: rastreadores-aranha, para-quedas de teia, disparos de teia no formato de bolas… nunca vimos isso na telona antes, possivelmente porque, no cinema isso não faz muito sentido… mas quando é Tony Stark quem criou o uniforme, a coisa muda de figura. E temos até as famosas “teias de baixo do braço” usadas com o propósito para a qual foram pensadas por Steve Dikto nos anos 60: planar! Coisa que nem nos quadrinhos acontecia!

E claro, temos uma cena que homenageia uma das melhores histórias da fase Lee/Dikto dos anos 60, tirada de Amazing Spider-Man 33:

Essa é uma história em que o Aranha enfrenta o Dr. Octopus ao mesmo tempo em que corre contra o tempo atrás de um remédio para a tia May. Quando ele é soterrado por esse monte de entulho, tudo parece estar perdido. Até que ele descobre os limites da força de Aranha. Quando isso acontece na telona, é de lacrimejar os olhos.

Michael Keaton está perfeito como o Abutre e é, de longe, o vilão com a motivação mais verossímel de todos os filmes. Mas é claro, essa mania do vilão descobrir a identidade secreta do herói se mantém e isso irrita.

Ademais, os pontos negativos são essa “pagação de pau” do Aranha para o Homem de Ferro, que eu nunca engoli, mas ok, faz sentido dentro do universo cinematográfico. E a batalha final, que se resolve muito facilmente e está longe de ser épica, embora seja crível.

Tirando esses pequenos detalhes, De Volta ao Lar é, disparado, o melhor entre todos os filmes aracnídeos, sem sombra de dúvida. Que venham mais!

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