(ou: por que deixei de colecionar quadrinhos)

Em fevereiro de 2022 fará 20 anos desde que a Panini assumiu as publicações da Marvel. Será que alguém continua colecionando? Imagino que sim, já que a editoria continua no mercado até hoje, mesmo apesar das constantes reclamações de preços abusivos, erros crassos de revisão e inúmeras outras coisas.

20 anos! Uau, é tempo, hein? 20 anos desde o fim da hegemonia da Editora Abril, que dominava os quadrinhos de super-heróis desde 1975. Eu estava no penúltimo ano da faculdade na época. E já vinha me desanimando dos quadrinhos fazia tempo, mas colecionador tem essa coisa, é praticamente um vício. Não importa que os roteiros estejam uma merda, que os desenhos sejas horríveis, o cara continua comprando, haja o que houver, custe o que custar. Parece até certas pessoas que continuam defendendo político, mesmo o cara cagando na cabeça delas, não? É a mesma lógica. Qualquer fanatismo é prejudicial.

Mas eu seguia comprando. A Panini acertou ao trazer os títulos mensais para um formato parecido com o americano, já que os saudosos “formatinhos” da Abril já não faziam mais sentido. A antiga editora ainda fez uma tentativa através da malfadada série Premium, errando vergonhosamente. Se antes os colecionadores gastavam cerca de 2,50 a 5,00 reais para colecionar seu super-herói favorito, isso no auge do Real, dar um salto para 10,00 assustou a grande maioria dos leitores. A ideia de migrar para o formato não era ruim, mas papel especial e 160 páginas, encareceu demais um produto que a grande maioria não tinha poder aquisitivo para acompanhar.

A Abril sempre teve seus defeitos. Cortes de páginas, adaptações, até mesmo alterações de personagens nas histórias, e diziam com orgulho que tinham uma “cronologia própria”. Mas era o que tinha. Veio a Panini, pagando como salvadora da pátria. A Abril ainda tentou continuar com os quadrinhos da DC, retornando ao formatinho, mas já era tarde demais. Não demorou para que a editora italiana abocanhasse a turma da Liga da Justiça também.

Mas quase dois anos depois, já começaram as primeiras alterações. Mudaram o formato, aproximando-se mais do americano, e também adotaram o odioso papel pisa brite, tudo para poder manter o custo. Ok. Mas o método da publicação também sempre foi confuso. Digam o que quiserem da Abril, mas cada edição tinha uma lógica.

Se, no título original, houvesse um arco de histórias em várias edições – por exemplo, Amazing Spider-man 391 a 395 – a Abril procurava dar um jeito de publicar esse arco em uma única edição do título Homem-Aranha aqui no Brasil. Mas a Panini seguia a mesma ordem de publicação dos Estados Unidos, mais ou menos. Então, se em um mês tivesse saído uma edição de ASM (Amazing Spider-Man), PP (Peter Parker: Spectacular Spider-Man), Web of Spider-Man e uma mini-série do Venom, ela dava um jeito de enfiar tudo em um título só de “Homem-Aranha”. Ou seja, cada edição trazia vários capítulos de arcos diferentes, ao invés de um arco completo.

Além de tornar a leitura confusa, é óbvio que o objetivo era tentar fidelizar o leitor, já que isso aumentava a dependência entre as edições. Pois se, em uma edição, pudesse estar sendo concluído um arco de ASM, ao mesmo tempo estava na parte 2 ou 3 de um arco de PP. Assim, o leitor esporádico, que só quisesse comprar a revista em um mês aleatório para ver o que estava rolando, sentia-se compelido a comprar o próximo número. E o próximo e o próximo.

Vou dar um exemplo prático apenas para explicar melhor essa questão da ordem de leitura, sem necessariamente entrar no detalhe da dependência entre edições. O encadernado de O Espetacular Homem-Aranha vol. 4 reúne a saga “AranhaVerso”, que é perfeito para ilustrar o que quero dizer. A Panini organizou a edição por título, ou seja:

ASM 9-15
Spider-verse 1-2
Spider-verde Team-up 1-3
Spider-woman 1-4
Scarlet Spiders 1-3
Spider-Man 2099 5-8

Ocorre que a saga principal se passa em ASM, que é por onde começa a leitura e corresponde a cerca de 20% do volume. Então se você lê nessa ordem, já sabe como tudo termina antes de ler todo o resto. Ou seja, quando vai ler todo o resto do volume, já sabe o que rolou. A ordem de leitura faria muito mais sentido organizada assim:

Spider-verse 1-2
Spider-man 2099 5
(Na verdade essas três deveriam ter feito parte do volume anterior: Prelúdio para o Aranhaverso)

Spider-Verse Team-Up 1
AMS 9-10
Spider-Man 2099 6
Scarlet Spiders 1-2
ASM 11
Spider-Verse Team-Up 2
Spider-Woman 1-2
ASM 12
Spider-Man 2099 7
Scarlet Spiders 3
ASM 13
Spider-Verse Team-Up 3
Spider-Woman 3
Spider-Man 2099 8
ASM 14
Spider-Woman 4
ASM 15

Dessa maneira, além do leitor evitar spoilers antecipados, alguns acontecimentos mostrados apenas em ASM acabam não aparecendo tão “abruptos”, já que estão sendo trabalhados em detalhes nos demais títulos. A preocupação com uma ordem de leitura mais fluída DEVE ser uma responsabilidade da editora.

“Ah, mas se fosse a Abril, com certeza teria cortes de página e edições faltando nesse bolo aí”. Sabe que, não necessariamente? Se fossem os anos 80/90, eu diria que sim, muito provavelmente. Mas o mercado evoluiu, o leitor ficou mais exigente e, além disso, o advento da internet possibilitou aos leitores terem acesso ao material original e comparar com o que era feito em terras brazucas, algo que antes só era possível para quem comprasse quadrinhos importados. É claro que esse amadurecimento e exigências com padrões de qualidade acabam trazendo um viés perigoso, mas eu vou chegar lá.

Some-se a essa despreocupação com a experiência da leitura, uma queda vertiginosa na qualidade dos roteiros. Vou falar especificamente do título do Aranha, que era o que eu acompanhava. Após a Saga do Clone, foi só ladeira abaixo. Houve uma esperançazinha quando Straczynski assumiu, logo nos primeiros números da Panini. E no começo até tinha-se lá uma ou outra ideia bacana, mas aquele lance dos totens eu não engulo até hoje, além de ter uns diálogos arrastados e bem sofríveis. E nem me deixe começar a falar sobre o que ele fez com a imagem de Gwen Stacy. De longe, o pior roteirista do Aranha de todos os tempos, que simplesmente não conhecia o personagem, apenas quis “deixar sua marca”.

Mesmo Paul Jenkins, que sempre trouxe histórias legais, parece que não sabia o que fazer com o aracnídeo. E a arte NOJENTA daquele Humberto Ramos não ajudava nem um pouco. Sério, eu preferia ver o Sal Buscema com arte-final do Bill Siancevicz durante a Saga do Clone, onde não se entendia NADA do que estava acontecendo, do que encarar uma página desenhada por esse cara. Horrível demais.

E é claro, aquela velha história nos quadrinhos de super-heróis: personagens que voltam à vida, erros de cronologia, mega-sagas todo mês, retcons em cima de retcons em cima de retcons… não sei como o pessoal ainda tem paciência para acompanhar. É uma bagunça atrás da outra.

Tudo isso, acompanhado dos compromissos de fim de faculdade, e já sabendo da proximidade do fatídico “pacto com Mefisto”, acabou me fazendo desistir, e parei de comprar no final da saga “O Outro”, publicada nas edições 60 a 63, de 2007. E não me arrependi, pois parece que a coisa só piorou depois disso.

Como eu sei? Bem, recentemente, revi o desenho do Aranha dos ano 90 no Disney+ e fiquei curioso em ver como estavam as publicações do aracnídeo aqui no Brasil. E pelamor do tio Ben, que salada! A Panini resolveu copiar o estilo de publicação original da Marvel, o que nunca funcionou aqui no Brasil. Lá, quando Octopus passou sua mente para o corpo de Peter Parker, iniciando a fase “Superior”, cancelou-se o título ASM nos EUA e começou “Superior Spider-Man”. Aqui, a Panini fez o mesmo. Quando essa fase terminou, a Marvel iniciou uma nova série de ASM, em 2014. E Em 2015 fez a mesma coisa. Novamente, a Panini repetiu a cagada de ressetar a numeração do título “Espetacular Homem-Aranha”.

Não sei se isso é apenas estratégia para não assustar novos leitores, que poderiam ver uma numeração elevada e sentirem-se intimidados em comprar uma edição e iniciar uma coleção. Mas na minha opinião, isso causa muito mais confusão e intimidação do que se tivesse mantido a numeração. Já teria passado do número 200 a essa altura e facilitaria ao leitor entender a continuidade das coisas e, inclusive, correr atrás de números anteriores nos sebos.

Da maneira como foi construído, o cara realmente interessado tem que fazer uma extensa pesquisa para entender a lógica da coisa, antes de sequer pensar em colecionar algo. Não é à toa que chovem de perguntas nos grupos e páginas do Facebook, de leitores novatos completamente perdidos.

Ao menos há uma decisão acertada em tudo isso (embora, novamente, a ideia não tenha partido deles, e sim da Marvel) de lançar os encadernados de Espetacular Homem-Aranha, que pega as histórias a partir do fim de Homem-Aranha Superior, ou seja, ASM de 2014, quando a mente de Peter retorna ao corpo do Aranha.

Mas cheguei a ler algumas dessas histórias recentemente e, repito novamente: não me arrependo de ter parado de colecionar. Quadrinhos de super-heróis já deram o que tinham que dar, é uma ou outra história que se salva, mas de resto, é tudo mais do mesmo. Além disso, essa onda de encadernados, edições de luxo, edições “definitivas” e “omnibus” acabaram transformando o mercado, para pior.

E aí voltamos àquela questão do amadurecimento do público. Se por um lado, o leitor exigente exigiu que as editores tivessem maior preocupação em não ter cortes de página, pular edições e por aí vai, por outro criou-se um caminho perigoso e, sem volta, de lançamento de edições de luxo, só pela beleza do material e não pelo conteúdo dele em si.

Colecionadores, hoje, compram essas edições mais para ficarem bonitas na estante e postar fotinhos nas redes sociais. E isso, em um país como o Brasil, onde o hábito de ler sempre foi algo bastante escasso, é algo horrível de se constatar. E isso não se limita apenas às grandes editoras, não.

Olhemos para o mercado de quadrinhos independentes, que começou com fanzines feitos em papel sulfite e xerocados à exaustão. Passou-se para as revistas publicadas em formato americano e papel couchê, movimento do qual inclusive, fiz parte, com a Quadrinhópole, nos idos de 2006 e por aí vai. Na época, foi uma revolução, chamando atenção do grande público, e a criação do coletivo Quarto Mundo ajudou ainda mais a propagar a ideia de que os quadrinhos nacionais não deixavam em nada a desejar para os importados.

Mas hoje, as revistas também estão desaparecendo, dando lugar a livros mais bem acabados, com capa dura, coloridos, edições “premium” e assim por diante. Nada mais natural, pois se todo mundo está fazendo igual, você tem de fazer diferente para se destacar, ainda mais nos eventos de quadrinhos, onde o público passante fica completamente perdido com a quantidade de opções. E quando todo mundo lança livros, ao invés de revistas, o próximo passo é se destacar pelo acabamento. E quando todo mundo lança “álbuns premium”, qual é o próximo passo? E o próximo? E o próximo?

Essa não é necessariamente uma reclamação, mas uma provocação para reflexão. Pois, se ao mesmo tempo é muito bacana termos álbuns dignos de prateleira de livraria sendo produzidos e publicados aqui, ao mesmo tempo estamos contribuindo para essa “gourmetização” dos quadrinhos de maneira geral e uma consequente elitização da leitura.

Talvez seja uma tendência do mercado mesmo. Mas se a Panini, que é a “editora do mainstream” lança um álbum de capa dura, 300 páginas, custando mais de R$ 100,00, e vende horrores, mesmo com todo mundo reclamando que não se tem nenhum cuidado de revisão ou de ordem de leitura, talvez valha a pena você dar uma olhada no que os independentes andam fazendo, a um preço bem mais acessível.

Mas ao mesmo tempo, será que vale a pena a gente continuar incentivando esse tipo de lançamento? Será que nós, como autores E leitores, não estamos contribuindo para essa elitização da leitura no país? Não tenho uma resposta, deixo a pergunta no ar para vocês refletirem.

Um comentário em “Quase 20 anos de Panini no Brasil: reflexões sobre o mercado

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