Apesar da animação ser meio tosca, as histórias são bastante fiéis aos quadrinhos. Você consegue identificar todas as referências?

Talvez, dos personagens da Marvel, o Homem-Aranha seja o que mais tenha séries animadas diferentes. Teve as tosquisses dos anos 60 e 70, “Homem-Aranha e seus amigos” (com Homem de Gelo e Flama) nos anos 80, aí veio essa, preferida por muitos fãs, justamente por remeter a fases clássicas das HQs. Além disso, assim como o desenho dos X-Men, havia uma continuidade sempre presente em cada capítulo. Praticamente todas as animações que vieram depois dessa tinham ideias próprias, insistindo em infantilizar o personagem, e/ou voltadas ao público infantil/adolescente.

A Editora Abril chegou a lançar uma série na época, “Spider-Man Collection”, que não só trazia as clássicas HQs dos anos 60 e 70 por Stan Lee e Steve Dikto, como também acompanhava uma fita VHS dessa série a cada número. Recentemente, o Disney+ disponibilizou a animação com todas as temporadas, o que permitiu que os fãs revisitassem essa pérola. Você encontra fácil a lista de episódios na wikipedia, mas eu gostaria de ir além, falando um pouco mais em detalhes sobre o que acontece em cada temporada e quais os arcos, nos quadrinhos, que inspiraram tudo isso.

Para referência, as abreviações dos títulos originais da Marvel e dos títulos da Editora Abril que serão usados ao longo do texto (não considerei as publicações da Panini):

ASM – Amazing Spider-Man
ASMA – Amazing Spider-Man Annual
GHM – Grandes Heróis Marvel
HA – Homem-Aranha
ME – Marvel Especial
MFF – Marvel Fanfare
OSHM – Origens dos Super-Heróis Marvel
PP – Peter Parker, the Spectacular Spider-Man
TA – Teia do Aranha
WSM – Web of Spider-Man

Primeira Temporada

A série já começa com o Aranha enfrentando o Lagarto, um de seus inimigos mais icônicos. Assim como em Caverna do Dragão, não há um episódio de origem, sendo a picada da aranha mostrada na abertura da série e em flashbacks de alguns episódios. O tema principal dessa temporada parece ser a introdução dos vilões clássicos, mas também a criação de Venom, já que Eddie Brock está lá desde o começo, sendo ridicularizado ao final do primeiro episódio, ao levar J. J. Jameson e as autoridades até a casa do Dr. Connors, alegando que ele era o vilão, mas àquela altura ele já havia sido curado.

Em seguida, somos apresentados a um inimigo que era mais presente nas histórias antigas do aracnídeo: Spencer Smythe, o cientista criador dos Esmaga-Aranhas. No episódio 2, o Rei do Crime o contrata para destruir o Aranha, já que ele está interferindo em seus negócios, mas ele acaba morrendo em uma explosão. Seu filho, Alystaire, retorna no episódio seguinte para se vingar, fazendo referência a dois arcos nos quadrinhos. O primeiro, publicado em ASM # 189 a 191, de 1978 (No Brasil, TA # 47, de 1993). Justamente a história em que Spencer Smythe está morrendo e, para se vingar, prende o Aranha e Jameson em um bracelete-bomba programado para explodir.

O segundo, arco em que Alystaire retorna para sua vingança, publicado em ASM # 368 a 372, de 1992 (no Brasil, HA # 154 e 155, de 1996). Bastante curioso que o desenho faça referência a arcos de histórias separados por mais de uma década! É claro, Alystaire falha em sua missão de destruir o herói e, como resultado, o Rei do Crime o obriga a trabalhar para ele até que consiga. Outro fato curioso, trunfo do desenho, é pegar um vilão de quinta categoria como Smythe e transformá-lo em dos principais adversários do Aranha durante toda a série, junto com o Rei.

Novamente, Brock é ridicularizado ao tentar desmascarar o Aranha, mas na verdade acaba pegando Flash Thompson, que tentava pregar uma peça em Peter Parker ao se fantasiar de seu ídolo. Outro fato inspirado nos quadrinhos, já que, apesar de odiar Peter no colegial, Flash adorava o Aranha e realmente se fantasiou como o herói em ASM # 5/1963 (no BR, Spider-Man Collection 2 / 1997). Como resultado pela desfeita, Brock é demitido do Clarim Diário.

Os episódios seguintes introduzem outros vilões clássicos do Aranha, que tiveram suas origens mostradas ainda nos primeiros números de ASM nos anos 60: Doutor Octopus, Mysterio, Escorpião e Kraven. Todos sempre remetendo ao material original, já que Octopus era um cientista que teve os tentáculos fundidos ao seu corpo por radiação, Mysterio tentou incriminar o Aranha em sua primeira aparição e a criação do Escorpião (originalmente um detetive contratado por Jameson para tentar descobrir como Peter Parker conseguia tantas fotos do Aranha) foi financiada por Jameson (como tantos outros vilões, já que nos anos 60 a 80, o ódio de J.J. era tanto que ele realmente queria ver o Aranha morto) e produzida pelo Dr. Stillwell, que faz várias aparições ao longo da série. Apenas a origem de Kraven destoa um pouco, já que nos quadrinhos, ele havia sido contatado pelo Camaleão para deter o Aranha, enquanto que aqui seus caminhos se cruzam por acaso.

Finalmente, os episódios 9 a 10 formam uma trilogia que dá origem a Venom. Nos quadrinhos, o simbionte alienígena veio para a Terra com o Aranha após a saga Guerras Secretas. Quando descobriu que o uniforme estava tentando ligar-se a ele permanentemente, Peter livrou-se dele e adotou um uniforme negro de tecido. Apenas muitos anos depois, um repórter que culpava o Aranha por seu fracasso acabou encontrando o alienígena, dando origem ao vilão (ASM # 300/1988. No BR, HA # 105/1992).

Aqui, a solução é um pouco mais simples. O filho de Jonah, o astronauta John Jameson, retorna de uma missão na lua e seu foguete dá uma pane. Ao tentar salvá-lo (o que realmente aconteceu nos quadrinhos, logo na primeira edição de ASM, de 1963. Aqui foi publicada em inúmeras edições, mas talvez seja mais fácil encontrá-la em OSHM # 02 / 1994), o Aranha acaba se ligando ao uniforme, que veio “de carona” com os astronautas. O sonho que Peter tem em seguida, dos dois uniformes brigando por ele, é praticamente idêntico ao da história publicada em ASM # 258/1984 (no BR, HA # 76/1989).

Mas o alienígena não foi a única coisa que o foguete trouxe. Os astronautas também encontraram um material que interessa o Rei do Crime, o que o leva a contratar o Rino para roubar o material. Brock estava no local e fotografa o Aranha entrando na nave, acusando-o de roubo. Logo, J.J. oferece uma recompensa pelo herói e o novo Homem-Aranha negro se vê às voltas com Rino, Shocker e uma série de caçadores de recompensas, enquanto tenta reaver o componente roubado.

Não demora, J.J. descobre que Brock omitiu as fotos do Rino e o demite novamente. Ele cancela a recompensa e Brock passa a perseguir o Aranha, até o confronto final com os bandidos, que se dá na torre de uma igreja. Nos quadrinhos, Peter Parker também usa o barulho do sino para se livrar do simbionte e lá ele ficaria por anos até encontrar Eddie Brock. Aqui, o encontro se dá muito mais rápido e Venom surge no episódio seguinte e passa a perseguir o Aranha em busca de vingança. O herói só sobrevive porque consegue separar os dois e mandar o alienígena de volta ao espaço em um foguete da NASA.

Os episódios 11 e 12 apresentam o Duende Macabro, com uma incongruência cronológica, se compararmos aos quadrinhos. Lá, o Duende Verde surgiu primeiro, na pele de Norman Osborn, o primeiro vilão a descobrir a verdadeira identidade do Homem-Aranha. O maníaco homicida o atormentaria por anos, sendo responsável pela morte de Gwen Stacy, até sucumbir por suas próprias mãos. Seu filho, Harry, seguiria seus passos, até ser detido pelo Aranha e acabar tendo amnésia. O Aranha ficaria anos sem ter um duende lhe atazanando, até que alguém descobriria um dos esconderijos de Norman Osborn e, com algumas adaptações, se tornaria o Duende Macabro. A verdadeira identidade desse novo inimigo ficaria em segredo por anos, até revelar-se que se tratava de Roderick Kingsley.

Aqui no desenho, Norman cria o Duende Macabro para tentar derrubar o Rei do Crime. Apenas ele sabe de sua real identidade, mas o Duende tem planos próprios. Ora trabalhando para Osborn, ora para o Rei, ora traindo ambos.

Por fim, o 13º episódio mostra o primeiro encontro do Aranha com o Camaleão, que nos quadrinhos, foi o seu primeiro inimigo, fazendo sua aparição em ASM # 01 (sim, a mesma edição que traz o Aranha salvando o filho de Jameson). No Brasil, a história pode ser encontrada em TA # 51/1994 ou em Spider-Man Collection # 01/1997.

Vilão que teve fases bastante distintas nos quadrinhos – ora como terrorista, ora como gângster, ora como só mais um maluco – aqui o Camaleão é apresentado como terrorista internacional, com a SHIELD de Nick Fury em seu encalço. Sua captura só acaba sendo possível porque ele assume a identidade da única pessoa que não poderia: Peter Parker. Fato novamente inspirado em uma história: ASM # 80 / 1970 (no BR, TA # 10 / 1990).

Segunda Temporada (Pesadelo Neogênico)

Se na primeira temporada o tema era a introdução de vilões, aqui tudo gira em torno de uma mutação genética que está acontecendo com nosso herói, baseada em um arco publicado em ASM # 100-102/1971 (no BR, TA # 17 e 18/1991). Na ocasião, o Aranha ganharia quatro braços extras e acabaria enfrentando Morbius, o vampiro vivo, pela primeira vez. Mas, se nos quadrinhos a coisa toda dura apenas algumas edições, agora no desenho ela vai sendo construída aos poucos.

A trama já começa de forma tensa, com Peter perdendo seus poderes logo na pior hora, quando o Rei orquestra a fuga da prisão de todos os inimigos presos na temporada anterior. Assim, Dr. Octopus, Escorpião, Mysterio, Camaleão, Rino e Shocker acabam se reunindo na formação mais patética do Sexteto Sinistro já vista (chamados aqui de “Os Seis Traiçoeiros”, nos primeiros dois episódios da temporada).

Nos quadrinhos, o grupo se reuniu pela primeira vez em ASMA # 1/1964 (no BR, OSHM # 03/1995) pelo Dr. Octopus, que procurava vingança. Eles só voltariam a se reunir em ASM # 334-339/1990 (no BR, HAA # 03/1993) e Octopus tinha um plano muito maior em mente. No desenho, eles tentam não apenas se vingar do Aranha, mas também acabar com os inimigos do Rei no Sindicato do Crime, como o Cabelo de Prata.

Em seguida, o Aranha confronta o Homem-Hídrico, que diferente dos quadrinhos, aqui aparece como um ex-namorado de Mary Jane, que inclusive o ajuda a derrotá-lo. Nos próximos dois episódios, o Aranha tenta entender o que está acontecendo com ele e vai procurar ajuda dos X-Men, o que leva os heróis a enfrentar o Duende Macabro e um cientista chamado Herbert Landon que quer destruir os mutantes.

Exatamente no meio da temporada é que a mutação acontece e que Morbius surge. Mas a transformação do Aranha não para apenas em ter alguns braços extras, ele se torna uma monstruosa aranha gigante (algo que, na verdade, aconteceria em outra história, MFF # 1-4/1981 – publicada no Brasil em GHM # 4/1984 ou ME # 6/1988 – mas teria curta duração). Para piorar, o Justiceiro, influenciado pelas notícias de que o Aranha teria sequestrado o estudante Michael Morbius, passa a persegui-lo. Fato que também remete aos quadrinhos, já que a primeira aparição do vigilante foi justamente numa história do Aranha (ASM # 129/1974, pra ser exato. No BR, TA # 25/1991). Na ocasião, Frank Castle fora ludibriado pelo Chacal para perseguir seu inimigo.

A coisa só se resolve quando a Dra. Mariah Crawford, que estava pesquisando sua mutação, pede a ajuda de Kraven para detê-lo e então consegue administrar um soro para reverter a transformação. Mas ele ainda não está plenamente curado e o Dr. Connors desenvolve uma terapia para mantê-lo normal. Agora o Aranha tem de se submeter aos raios de uma máquina a cada 24 horas para continuar sendo quem é, o que apenas remedia a situação por tempo suficiente para que ele volte a caçar Morbius, agora aliado a Blade, o caçador de vampiros. A perseguição dura os episódios 9 e 10 e termina com o vilão foragido, agora completamente transformado em um morcego gigante.

Mas ainda não acabou. O arco final da temporada remete a histórias publicadas em ASM # 68 a 77/1969 (no BR, TA # 06 a 09/1990). Na ocasião, os líderes do crime de Nova Iorque estavam brigando por uma plaqueta misteriosa que supostamente guardava o segredo da juventude eterna. No desenho, da mesma forma, temos o Rei do Crime e o Cabelo de Prata brigando por ela, com participação de Cabeça de Martelo, Lápide e Smythe, que cria um novo robô (mais uma vez remetendo a HA # 154/155) para ajudar o Rei.

Há um festival de sequestros também nesses episódios. Dr. Connors e sua família são pegos pelo Cabelo de Prata, já que ele precisa de sua ajuda para desvendar a plaqueta. O Rei sequestra a filha do Cabelo para ter vantagem sobre ele, e o gângster sequestra sua esposa, Vanessa, pelo mesmo motivo. Essa bagunça toda termina, tal como nos quadrinhos, com o Cabelo de Prata rejuvenescendo continuamente até deixar de existir. Vanessa deixa o Rei e, como resultado, ele desiste da plaqueta e manda o Cabeça de Martelo se livrar dela.

A fim de faturar algum, o bandido vende a peça a Adrian Toomes, o Abutre. A referência agora é a ASM # 386-388/1994 (no BR, TA # 85/1996), arco no qual o vilão consegue uma máquina capaz de sugar a energia vital de outras pessoas. No desenho, ele utiliza a plaqueta para fazê-lo, o que foi uma sacada bacana dos produtores. Mas o efeito é temporário e o Abutre tem que fazer novas vítimas de tempos em tempos para se manter jovem, até que finalmente suga a energia do Homem-Aranha, tornando-se mais forte do que nunca.

Só que o Abutre não contava que, ao sugar a energia do aracnídeo, sua mutação iria junto, e ele acaba começando a se transformar na aranha gigante. No episódio final da temporada, ele procura o Dr. Connors para ajudá-lo, tendo a mesma ideia que o Escorpião, já que este deseja voltar ao normal. Mas Connors precisa do Aranha e os dois vilões se juntam para raptar o herói. O cientista engana o Abutre, de maneira que consegue não apenas reverter a transformação do Aranha, tornando-o jovem novamente, mas também curá-lo definitivamente da mutação.

Assim, o revitalecido aracnídeo tem de lidar com Abutre, Escorpião e, claro, o Lagarto, nesse final de temporada, mas isso agora é só mais outra terça-feira para ele. Connors volta ao normal, o Escorpião foge e o Abutre, meio transformado em Aranha, alça vôo para longe.

Agora querendo retomar o tempo perdido, Peter vai ter com Mary Jane, que estava prestes a reencontrar seu pai. Contudo, chega atrasado ao encontro e ela desaparece.

Terceira Temporada (Os pecados dos pais)

MJ havia sido raptada pelo Barão Mordo, um inimigo do Dr. Estranho que estava recrutando jovens para dominar suas mentes, usando a desculpa de reuni-los com seus entes queridos. O Aranha então se alia ao mestre das artes místicas para acabar com os planos do vilão de trazer o demônio Dormammu para nossa dimensão, algo que remete, meio que de relance, à ASMA # 14/1980 (no BR, GHM # 18/1987), história em que o Dr. Estranho pede ajuda do Aranha contra um plano de Dormammu e do Dr. Destino, que acabou por dominar a mente de um pequeno exército de pessoas.

Também é nesse episódio que o aracnídeo encontra a Madame Teia pela primeira vez, presença constante nessa temporada, mas que só retornaria na quinta. Nos quadrinhos, ela é uma valorosa aliada, mas aqui, o jeito dela de falar em enigmas acaba sendo bem irritante.

Nos próximos dois episódios temos uma homenagem a uma das histórias mais emocionantes já produzidas do herói: O menino que colecionava Homem-Aranha, publicada originalmente em ASM # 248/1884 e aqui no Brasil em HA # 19/1985. Nas ocasião, o Aranha visita um garotinho chamado Timmy que tinha tudo sobre ele… recortes de jornal, balas que ele pegou após um tiroteio, entre outros itens curiosos. Na ocasião, ele confessa ao garoto como ganhou seus poderes, fala sobre a morte do tio Ben e chega até mesmo a revelar sua verdadeira identidade. No final da história é revelado que o garoto tinha leucemia e não estava no quarto de sua casa, mas sim em um quarto de hospital.

No desenho, Timmy é substituído por uma garotinha e tudo ocorre de forma mais ou menos idêntica à HQ, mas a aventura não para apenas na visita. Ela acaba acompanhando o herói na cidade e o segue quando ele é atacado pelo Dr. Octopus e o vilão apaga sua memória, algo que remete a ASM # 53-58/1968 (no BR, TA # 01 e 02/1989). Na ocasião, Octopus consegue convencê-lo de que os dois são parceiros no crime. A garotinha consegue ajuda e é claro que, eventualmente, ele se lembra de quem é para deter o vilão.

O episódio seguinte traz a estreia do Duende Verde. Depois de uma explosão em seu laboratório, Norman Osborn desaparece e o Duende passa a sequestrar seu conselho diretor, como vingança. Foi uma sacada inteligente dos roteiristas, pois dessa forma mesmo os fãs conhecedores ficam na dúvida se a verdadeira identidade do vilão é realmente Norman, ou seu filho que, conforme já mencionado, seguiria seus passos nos quadrinhos.

Mas era realmente Norman por trás da máscara, que acaba com amnésia no fim do episódio, conforme ocorrera em ASM # 39-40/1966. Para quem quiser saber mais sobre o Duende Verde, recomendo a leitura dos dois primeiros números de Marvel Especial da Editora Abril (1986), que reúne todos os confrontos com o Duende original, até a morte de Gwen Stacy.

Logo depois somos apresentados a Robert Farrel, o Rocket Racer, um dos poucos casos de vilões do Aranha que acabaria se regenerando e se tornando um de seus grandes aliados. A história aqui remete a ASM # 183/1978 (No BR, HA # 02/1983 ou TA # 44/1993), com o surgimento de um vilão chamado “Engrenagem” que pilotava uma roda gigante criada pelo Consertador. Nos quadrinhos, ele passa a história toda perseguindo Rocket enquanto que no desenho, o vilão e sua gangue estão aterrorizando o bairro onde Robert vive. Para dar o troco, ele decide roubar o equipamento dos bandidos e quase se torna um ladrão, mas na verdade acaba ajudando o Aranha a detê-los.

O curioso dessa história em ASM # 183 é que é justamente nela que Peter pede a mão de MJ em casamento pela primeira vez, tendo sua recusa como resposta nas páginas finais. A ruiva ficaria anos sem dar as caras novamente e Peter só voltaria a pedi-la em casamento muitos anos depois.

Nos episódios 6 e 7 da temporada, Peter Parker é incriminado pelo filho do Rei, Richard Fisk, que nos quadrinhos assume a identidade do Rosa e enfrenta o Aranha em inúmeras ocasiões. Seu principal objetivo é derrubar o império de seu pai, mas aqui ele ainda trabalha para ele. Para limpar seu nome, o Aranha conta com a ajuda do Demolidor, que num primeiro momento tenta enfrentá-lo, já que havia sido enganado pelo Camaleão.

Os episódios também mostram o passado de Wilson Fisk e como ele se tornaria o Rei do Crime, origem bastante parecida com a dos quadrinhos. O curioso é que, apesar do Rei ter se consolidado como principal inimigo do Demolidor, sua primeira aparição se deu nas páginas das histórias do Homem-Aranha (mais precisamente, ASM # 50/1967 e no BR, GHM # 23/1989, mesma história em que Peter desiste de ser o Homem-Aranha e é homenageada no segundo filme do Sam Raimi) e atormentaria o aracnídeo por décadas.

No desenho, o herói cego revela ao aracnídeo a verdadeira identidade do Rei do Crime, mas ele pouco pode fazer. Richard assume a culpa pelos crimes do pai e acaba preso, enquanto o Rei responsabiliza Smythe pelo fracasso da operação. Como resultado, ele planeja trair seu empregador no episódio seguinte, mas o Rei está um passo à frente e o captura.

O Dr. Landon volta a aparecer nesse ponto (deformado após o confronto com os X-Men), apenas para transformar Smythe no Esmaga-Aranha Supremo, remetendo novamente ao arco de HA # 154/155, embora nos quadrinhos, fora o próprio Smythe quem alterara seu corpo para ficar páreo com o Homem-Aranha em um combate corpo a corpo. Aqui, o Rei tenta controlar sua mente, sem sucesso. No fim das contas, Smythe descobre que seu pai estava vivo desde o início, mantido em animação criogênica esse tempo todo.

Em seguida, o Aranha tem de lidar com o retorno de Lápide, que está trabalhando para Alícia, filha do Cabelo-de-Prata, que por sua vez assumira o império criminoso do pai. Na ocasião ficamos sabendo da origem do criminoso e seu passado com Robbie Robertson, amigo de Peter e editor do Clarim Diário. No desenho, é dito que os dois eram amigos de infância e Lápide era negro, tal como Robbie. Quando os dois tentaram roubar uma loja, Lápide foi preso, o que o levaria à vida do crime. Eles voltariam a se encontrar apenas muitos anos depois, quando o vilão tentaria se vingar, mas acabaria caindo em um tanque de produtos químicos (sim, exatamente como um certo inimigo do Batman), o que lhe conferiria o aspecto pálido de sua pele.

Nos quadrinhos, o buraco é mais embaixo. Lonnie Lincoln sempre tivera um tom de pele esbranquiçado (até mencionam, em uma história, que ele é albino) e conhecera Robbie na adolescência, sempre o atormentando. Robbie chegaria a testemunhar seu “amigo” cometendo um assassinato, mas não contaria nada por puro medo. Essa história seria contada em PP # 139/1988, publicada no Brasil em HA # 106/1992. Lápide atormentaria o Aranha por vários números, envolvendo-o em uma guerra de gangues com o Rei, Cabeça-de-Martelo, Camaleão e muitos outros. Robbie, por outro lado, teria de enfrentar as consequências de seus atos e seria julgado por crime de omissão, chegando a ser preso no mesmo pavilhão que seu “velho amigo” (tudo isso mostrado em vários números de PP e WSM no final dos anos 80, mas publicados no Brasil nas edições 115 a 120 de HA, em 1993).

Esse embrolho todo só se resolveria alguns anos depois, em WSM # 66-68/1990 (no BR, HA # 130/1994 – e essa edição que eu recomendo caso queira saber mais sobre o vilão). Na ocasião, Lápide tenta roubar produtos químicos da indústria Osborn (na época, administrada por Harry) e acabaria tendo contato com um gás experimental que o deixaria ainda mais indestrutível. Por conta disso, ele perdoaria Robbie por tudo que acontecera entre os dois. De qualquer forma, aqui no desenho o bandido tentar incriminar o filho de Robbie como vingança pelo passado, mas é claro, acaba sendo detido pelo Aranha.

Nos episódios 10 e 11, vemos o retorno de Venom e o surgimento de Carnificina. No quadrinhos, Eddie Brock dividia a cela com o assassino serial Kletus Kassady após ter sido separado do simbionte em um confronto com o Aranha. Quando o alienígena retorna para se reunir com Brock, acaba se reproduzindo e o “filho” gerado se uniria a Kassady, formando Carnificina. O Aranha conseguiria enganar Brock, forjando sua morte e o deixando numa ilha deserta, mas quando teve de lidar com Carnificina, teve de pedir ajuda de Venom. Tudo isso foi mostrado em ASM # 344-347/1991 e 361-363/1992 (no BR, HA # 135-136/1994 e 149/1995).

Aqui a coisa é amenizada um pouco, possivelmente porque a produção não queria mostrar um assassino serial em um desenho animado. Então, o responsável pelo retorno do simbionte à Terra é o Barão Mordo, que consegue fazer a sonda lançada com o simbionte retornar à Terra. Assim como nos quadrinhos, quando ele se reúne com Brock, acaba se reproduzindo e se aliando a Kassady, mas o Barão Mordo exige que os dois trabalhem para Dormammu e roubem um aparelho capaz de abrir portais inter-dimensionais das Indústrias Stark.

O Aranha recebe ajuda para enfrentar os dois vilões. Primeiro, do Máquina de Combate e depois, é claro, do próprio Homem de Ferro. Brock, agora apaixonado pela Dra. Kafka que tentava ajudá-lo na prisão, acaba traindo seus “mestres” e se junta aos heróis para tentar deter Kassady. Este, por sua vez, estava roubando almas de pessoas inocentes para abastecer um objeto místico que libertaria Dormammu.

Todo esse papo místico acaba não fazendo muito sentido aqui, já que isso seria território do Dr. Estranho. Além disso, um maníaco como Kassady jamais concordaria em se aliar a Mordo e fazer o que lhe mandam, já que ele sempre teve seus próprios planos de matança sem sentido. Mas, novamente, penso que o lance do Carnificina roubar almas foi colocado aqui apenas para deixar a violência mais amena para o público do desenho. Também não faz sentido ter um Eddie Brock apaixonado pela Dra. Kafka, mas isso justifica suas ações ao final do episódio, no qual ele se sacrifica para salvá-la, enviando Dormuammu, Kassady e ele mesmo até o portal, prendendo o demônio em outra dimensão uma vez mais.

A Madame Teia faz sua aparição não apenas nesses dois episódios, mas em quase todos os demais, encarnando o “Mestre dos Magos”, ou seja, dando dicas para o Aranha resolver seus problemas, mas falando através de enigmas. Aqui, ela revela que está fazendo isso para prepará-lo para um grande mal que virá.

Logo depois somos apresentados ao Mancha, vilão de quinta categoria que surgiu em PP # 98-100/1985 (no BR, HA # 79-80/1990 – a mesma edição em que o Aranha se separa da Gata Negra). Um cientista chamado Jonathan Ohn, que trabalhava para o Rei e tentava replicar os poderes de um super-herói chamado Manto acabaria criando um buraco negro. Ao entrar no buraco, seu corpo se tornaria inteiramente branco, com manchas negras. Ele então ganharia a estranha habilidade de remover essas manchas do corpo e utilizá-las como portais. Ele até chegou a dar um certo trabalho para o Aranha num primeiro momento, mas depois foi facilmente vencido e ficaria anos sem aparecer, o que chega até a ser estranho ele ganhar destaque no desenho.

Aqui , da mesma forma, ele trabalha para o Rei e estuda a tecnologia interdimensional de Stark para tentar recriá-la, mas o mesmo acidente que lhe dá seus poderes acaba criando portais na cidade toda. Ele recolhe a maioria deles, mas esquece de um que vai ganhando tamanho ao longo do episódio, enquanto o Aranha tenta detê-lo. Mas no fim, ele se sacrifica para fechar o buraco e salvar o planeta.

Nesse ponto, é importante passar um panorama dos coadjuvantes até aqui. Harry Osborn, claro, é amigo de Peter Parker e namora Mary Jane (algo que realmente aconteceu nos quadrinhos e foi mostrado de relance nos filmes do Sam Raimi), após essa desistir de Peter após seus constantes sumiços e perceber que ele estava interessado em Felícia Hardy. Esta, por sua vez, é a Gata Negra nos quadrinhos, mas aqui ela apenas rejeita Peter para namorar Morbius e depois um homem chamado Jason Macendale.

Ao longo dessa temporada, MJ acaba deixando Harry e passa a namorar Peter. Nesse ponto é que se dão os episódios 13 e 14, que encerram a temporada. Tudo começa quando o Duende Macabro se apossa do dilatador temporal do Dr. Ohn, capaz de criar portais dimensionais. O Rei do Crime deseja se apossar do aparelho, e por isso vai até Norman Osborn lhe perguntar qual a real identidade do Duende. Norman não revela, mas a conversa acaba lhe trazendo a memória de volta.

Enlouquecido, e também desejando o dilatador temporal, o Duende Verde vai ter com Jason Macendale, revelando-se aqui como sendo a real identidade do Duende Macabro. Nos quadrinhos, Macendale na verdade foi o segundo Duende Macabro. Ele mataria Ned Leeds, que acreditava-se ser o Duende original, para roubar-lhe a identidade e subir na vida do crime, já que antes era apenas um reles bandido chamado Halloween. Alguns meses depois, Macendale seria possuído por um demônio e não precisaria mais usar máscara, já que seu próprio rosto assumiria uma aparência demoníaca.

Na ocasião, Harry assumiria a identidade do Duende Verde para proteger sua família do vilão. Esse confronto entre os duendes e a transformação de Macendale ocorreram durante a saga Inferno, de 1989 (na verdade uma saga dos X-Men, com interligação nos títulos do Aranha), que no Brasil saíram em HA 110 a 113/1992.

No desenho, os dois duendes se confrontam e, claro, sobra para o Homem-Aranha tentar impedir que se matem. Osborn acaba sequestrando Macendale e Felícia, mas o aracnídeo consegue salvá-los e prender Jason. Osborn escapa para retornar no episódio seguinte, agora determinado a se livrar do Aranha de uma vez por todas.

Ele então usa o aparelho roubado do Duende Macabro para enganar o sentido de aranha de Peter, descobrindo sua identidade secreta. Logo em seguida, sequestra seu inimigo e sai voando pela cidade, o que remete novamente a ASM # 39-40 . Peter se livra do inimigo, mas ele vai atrás de sua amada, levando-a até a ponte do Brooklynn, referência a outra história, ASM # 121/1973 (no BR, TA # 23/1991), quando o Duende mata Gwen Stacy jogando-a da ponte e morre por seu próprio planador logo em seguida, cenas homenageadas no primeiro filme do Aranha de Sam Raimi. Tudo isso também é mostrado nas duas edições previamente mencionadas de Marvel Especial.

No desenho, o confronto culmina com Mary Jane desaparecendo por um dos portais, destino compartilhado por Osborn. Possivelmente as mortes foram removidas novamente numa tentativa de amenizar as tragédias para o público do desenho. Faz sentido, portanto, que toda a temporada tenha girado em torno de portais dimensionais e que a Madame Teia, conhecedora do tecido da realidade e suas fragmentações, fizesse tantas aparições. Mas ela se recusa a ajudar o herói a resgatar MJ, o que faz com que ele fique de saco cheio de seus enigmas e missões sem sentido, acabando por escorraçá-la.

O texto continua no próximo post!

Um comentário em “O desenho do Aranha (90’s): referências e diferenças com as HQs (Parte 1 de 2)

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