O que tinha de tão especial nas histórias antigas do Aranha que o tornaram um dos heróis mais populares de todos os tempos?

Quem conhece a Era de Ouro e de Prata, certamente tem a resposta a essa pergunta na ponta da língua: diferente de outros heróis, mesmo da Marvel, o aracnídeo sempre produziu uma identificação maior com o leitor, por conta da vida de Peter Parker. Assim como seus leitores, Parker era um adolescente cheio de problemas: precisava cuidar da tia doente, vivia sem dinheiro, tinha poucos amigos e dificilmente dava sorte com as garotas. Era assim desde os tempos de Stan Lee e Steve Dikto.

Mas as coisas se acentuam ainda mais quando temos Gerry Conway e depois, Marv Wolfman nos roteiros. Peter era o mais humano dos heróis, justamente porque ele não era invencível. Ele ficava doente, se machucava nas batalhas, sempre vivia com um azar desgraçado e não tinha nenhum glamour em sua vida “super-heroística”.

Para ilustrar o que quero dizer, quero pegar de exemplo Amazing Spider-Man 193 a 200, um dos melhores arcos dessa época. No Brasil, essas histórias saíram pela Abril em Homem-Aranha 7 a 9, Teia do Aranha 51 a 53 ou no encadernado da Panini Coleção Definitiva do Homem-Aranha 21. Para minha sorte, Teia 51 foi um dos primeiros gibis do cabeça-de-teia que eu coloquei as mãos. Havia comprado o gibi num sebo porque a capa estampava a primeira aparição da Gata Negra, e eu só veria a conclusão de toda a trama muitos anos depois.

O aracnídeo não estava passando pela melhor das fases. Tinha pegado um resfriado – como acontecera tantas outras vezes, inclusive durante o confronto com o Duende Verde após este ter matado Gwen – e estava na cola do Mosca, um vilão criado especialmente para matá-lo. Sua vida pessoal também não andava lá essas coisas. Sua antiga namorada Betty havia voltado a aparecer e, apesar de Peter não querer nada com ela, não era o que seu marido, Ned Leeds achava. Além de complicar as coisas com MJ pela centésima vez, Peter ainda leva um soco de Ned. Quando vai atrás do Mosca para descarregar a tensão, descobre que a polícia o pegou antes. Se você acha que é muito azar pra um herói só, as coisas se complicam ainda mais na história seguinte.

Surge a Gata Negra, que parece ter um poder especial de infligir azar em quem cruza seu caminho (como se o Aranha precisasse de mais). Num confronto com ela, o herói acaba quebrando o braço. Demitido do Clarim, ele conseguiria um emprego no Globo onde, apesar do clima amistoso, nunca conseguira se encaixar muito bem. E no reencontro com a Gata, ao tentar ajudá-la, acaba vendo ela cair no mar entre rochedos, para a morte certa.

Chegando em casa com a sensação de não ter feito nada certo, seu dia fecha com chave de ouro ao receber um telegrama informando da morte de tia May. É claro, nas edições seguintes seria revelado que tudo não passaria de um plano de Mysterio e do bandido que matara tio Ben, culminando em uma das melhores edições comemorativas de ASM.

Mas o ponto que eu queria chegar era justamente o da TA 51. Não era uma edição típica do Aranha, com seu costumeiro bom-humor, apesar dos pesares que sempre lhe afligiam ao levar uma vida dupla. Uma edição que termina pesada, com aquela sensação de “será possível que nada dê certo na vida desse cara?”.

A edição seguinte começa com essa imagem aí que usei de capa para o post: um Homem-Aranha completamente desesperado, com o braço quebrado, rezando para que o telegrama fosse algum tipo de engano.

Assim eram as histórias antigas: sem sagas megalomaníacas, sem trazer de volta gente que morrera há anos, apenas boas histórias com que o leitor facilmente se identificava. Saudades!

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