“Em 1937, uma lei para banir o linchamento de afro-americanos foi analisada pelo senado. ELA NÃO FOI APROVADA”. Com esses dizeres surpreendentes, começa o filme “Os Estados Unidos contra Billie Holliday”.

O título pode remeter ao sentido jurídico do “país vs cantora”, mas vai muito além do que isso. Trata-se, realmente, a luta da artista contra toda uma nação.

O filme conta a história da famosa cantora de jazz, mas muito mais do que apenas uma biografia, é um testemunho da luta de uma única voz contra o racismo. Perseguida por causa de sua música “Strange Fruit”, Billie passa a ser alvo de agentes federais que querem, literalmente, calar sua boca. Dizem que a música é “provocativa”.

Não é para menos, já que a canção fala sobre o linchamento de um negro, testemunhado pela própria Holliday, em uma época em que a KKK cometia atrocidades impunemente por todo o país. Poderosa, “Strange Fruit” é aquelas músicas que te arrepiam até a alma. Assista o vídeo dela cantando e acompanhe a letra:

Pode-se entender, portanto, porque homens brancos em posição de poder tenham raiva dela. Mas eles não podem simplesmente proibi-la de cantar, então atacam seu vício em heroína. Billie é perseguida, presa, privada de seu maior dom. Mas não desiste, segue em frente e desafia seus torturadores, mesmo após chegar no fundo do poço.

Com um elenco de ponta, o diretor Lee Daniels (O Mordomo da Casa Branca, Obsessão) nos conduz através da vida dessa fantástica artista, com cenas fortes e fatos chocantes que talvez mesmo os fãs de jazz desconheçam. Andra Day dá um show à parte, incorporando Holliday à perfeição, de maneira que as cenas dela cantando são um deleite para os olhos e ouvidos.

Sem dar spoilers, mas em uma certa cena, uma entrevistadora lhe pergunta: “Por que você simplesmente não para de cantar a maldita música? Não seria mais fácil?”. Essa cena me lembrou um diálogo de X-Men 2, onde a mãe do Homem de Gelo pergunta: “Bobby, você já tentou não ser mutante?”.

É o mesmo que perguntar a um índio se ele não tentou deixar de ser índio. Para uma pessoa homossexual se ela nunca pensou em deixar de ser homossexual. E por aí vai. É triste pensar que um dos países mais desenvolvidos do mundo ainda tem de lutar contra algo que, esperávamos, em pleno 2021 já estivesse vencido.

Por isso mesmo, “Os Estados Unidos contra Billie Holliday” (disponível no HULU e no Prime Vídeo) surge como um filme de nossos tempos, vindo somar às fileiras de outros filmes que vêm lutar contra o racismo. Não deveria ser necessário, mas infelizmente ainda o é, talvez mais do que nunca.

Comecei esse post citando um texto do início do filme e quero terminar da mesma maneira: “Em fevereiro de 2020, a lei anti-linchamento foi analisada pelo senado. Ela AINDA não foi aprovada.”

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