Cuphead (Ou: não se fazem mais jogos como antigamente)

Eu queria jogar Cuphead desde que vi seu primeiro trailer, há dois anos atrás. O jogo finalmente chegou e virou uma febre instantânea. Mas muitos reclamam de seu nível de dificuldade. Será que o jogo é tão difícil assim, ou nos esquecemos de como era sofrer nos jogos de plataforma?

Antes de entrarmos na discussão sobre a dificuldade, gostaria de dizer que o grande lance de Cuphead é essa ideia fantástica de seus criadores de fazer homenagem aos desenhos animados dos anos 30. E isso torna o jogo magnífico em todos os aspectos: arte, música, história, humor… tudo! Só isso já é um grande acerto.

Mas talvez por conta do visual “bonitinho”, muitos esperavam um jogo simples e fácil. Ele passa bem longe disso, com um nível de dificuldade que remete aos jogos de plataforma dos anos 90. Mas há algumas diferenças.

Primeiramente, lembremos que quando você jogava Sonic, CONTRA, Kid Chameleon, Alex Kid e tantos outros, você tinha vidas limitadas. E quando acabassem os famosos “continues”, o jeito era começar tudo de novo, do zero. Não é o caso aqui. Lembremos que você tem vidas infinitas e, mesmo que você tenha que enfrentar o mesmo boss 200 vezes até conseguir superá-lo, tudo o que você fez antes está devidamente salvo.

Segundo, nos jogos antigos, o que você tinha que fazer era, essencialmente, decorar cada fase. Lembro, por exemplo, a última fase de “Dick Tracy”, do Mega Drive. A cada passo que você dava, surgiam dezenas de inimigos e vinha tiro de tudo que é lado. Demorei muito tempo para passar daquela fase e isso só foi possível quando eu decorei ela inteira, milímetro por milímetro.

Em Cuphead, não adianta nada decorar os movimentos dos inimigos. Melhor dizendo, não há como fazer isso, uma vez que seus movimentos são completamente aleatórios. Então, o esquema é tentativa e erro mesmo. Eu diria que é praticamente impossível você vencer um boss logo de cara (a menos que você tenha visto gameplay antes, o que eu sou contra, por matar toda a experiência da descoberta), simplesmente porque você não sabe o que ele vai fazer.

Cada boss é composto por três ou mais partes e em cada uma dessas partes, ele muda o seu comportamento. Mas mesmo dentro de cada uma das partes, o movimento é errático. Você só saberá quais são seus possíveis movimentos e como desviar deles jogando. E mesmo que você saiba qual o leque de ataques que uma certa parte de um certo boss comporta, você nunca sabe qual deles ele irá usar ou em qual ordem.

Por isso que um certo boss pode parecer difícil num primeiro momento, mas depois que você o conhece, vai embora. E depois de morrer umas quatrocentas vezes, você irá superá-lo com certeza, hehehe. Mas é aí que entra o grande lance, a grande diferença entre os jogos de antigamente e Cuphead.

Lembro que quando finalmente superei a última fase de Dick Tracy, senti um grande alívio. Mas, mais do que alívio, o sentimento de superar um boss de Cuphead, é de triunfo. Você vibra de emoção e é por isso que o jogo PRECISA ser difícil. Não seria a mesma coisa se fosse só correr, pular e atirar para avançar no jogo. Do contrário, você terminaria Cuphead e diria “Ah, legal”. Mas mais do que isso, ao terminar Cuphead, você fica com aquela sensação triunfante de dever cumprido.

Então, Cuphead é difícil? Depende. Se você só está acostumado com jogos casuais de hoje em dia, que mal oferecem um desafio, você certamente se assustará e o achará praticamente impossível. Mas se você sente saudade da época em que precisava passar horas jogando para avançar na aventura (e divertindo-se no processo, sem sentir vontade de tacar o controle na televisão), então Cuphead certamente é para você.

Especialmente se você é fã de jogos indie como eu. A experiência me lembrou muito Ori and the Blind Forest: um jogo com um visal lindo e desafio moderado. Difícil, mas justo, ou seja: não é impossível de ser superado.

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