
Incrivelmente, a versão que menos presta desse personagem é justamente sua mídia de origem: os quadrinhos.
Sendo um fã do Homem-Aranha e um fã de histórias noir, esse título deveria ser um deleite para mim. Mas vou ser sincero: o quadrinho é bem… “nhé”. Não tem nada do clima “noir” que se esperaria de uma história dessas, talvez por conta da arte meio poluída de Carmine Di Giandomenico. E não é que o cara seja ruim, mas eu acho que não combina em nada com a história.
Além disso, a versão de Peter Parker criada por David Hine e Fabrice Sapolsky não é ousada o suficiente, se limitando a ser meio que mais do mesmo, com a diferença de se passar na Grande Depressão. Mas ele ainda é um jovem adolescente que tira fotos para o Clarim, mora com a tia e adora Ciências.
Algumas versões dos vilões são até bem legais, como do Abutre e do Homem-Areia, mas Norman Osborn é só mais do mesmo e transformar o Dr. Octopus e Curt Connors em nazistas… sei lá, não convenceu. Não combina com esses personagens. Em resumo… uma grande decepção.
E a série?
Dito isso, o maior acerto da série que estreou recentemente no Prime Vídeo é justamente ter sucesso onde a HQ falha, ou seja: dar mais destaque ao “noir” do que ao “aranha”. Aqui o protagonista é Ben Reilly, mais velho e atuando como detetive, então os clichês do gênero estão todos lá: o caso que começa com aparentemente uma esposa infiel mas se mostra como algo mais, a cantora que trabalha na boate do vilão e se apaixona pelo detetive, gângsters querendo o couro do herói, e por aí vai.
Outro acerto é não usar Norman Osborn como vilão principal. Não sei se isso foi proposital ou não, mas ninguém mais aguenta ver o Aranha socando o Duende Verde, Osborn conhecendo sua identidade secreta e usando isso nos planos mais mirabolantes e blablabla. O Cabelo de Prata não é lá um vilão muito memorável e poderíamos ter outros bandidos com a mesma vibe, como o Cabeça de Martelo ou o “Chefão” ou “Maioral” das primeiras histórias do aracnídeo, ou mesmo Mysterio na pele de um mágico. Teria sido interessante, mas para uma primeira temporada, não dá pra reclamar.
A caracterização dos vilões é outro aspecto que vale ser mencionado, pois está bem legal. Homem-Areia, Electro e Lápide ganham uma versão mais realista e “monstrenga” do que os bandidos supercoloridos que estamos acostumados a ver nos gibis. Para não falar da caracterização do próprio Spider, que está impecável.
Outro acerto é não perder muito tempo explicando as origens das coisas. Spider já está na ativa há anos e o fato de existir pessoas com superpoderes é aceito pelos personagens da série como algo normal, o que até chega a causar certa estranheza para algo que se passa durante a Grande Depressão.
Então, os acertos se resumem a isso: visual, cenas de ação legais, caracterização. Quanto à história… é, bem… não tem nada demais, realmente. Não tem nada super cativante que te prenda na tela e apesar da história em si não ter grandes problemas, não existem grandes momentos de tensão ou reviravoltas. É algo bem construído e tudo mais, mas não foge do lugar nenhum. E obviamente, o clímax descamba pra um confronto entre herói e vilões que nem é lá essas coisas.
Em suma, achei que a série começa muito bem, mas não desenvolve legal. Particularmente, poderia ter tido algo mais “desesperador” para o herói resolver nos episódios finais, mas fica no mais do mesmo, sem necessariamente decepcionar mas também sem muita empolgação.
Talvez se tivesse sido inserido, por exemplo, o Abutre como um canibal sádico (como nas HQs), poderia ter trazido algo mais sombrio e dado um tom de mais seriedade e sensação de ameaça da segunda metade para frente. E também senti falta de algumas cenas mostrando o Spider de forma mais “furtiva”, trabalhando nas sombras, como seria mais condizente com o personagem. Há uma cena apenas, em que ele invade um quarto do hotel e suas lentes se destacam no escuro, que é sensacional.
Quem sabe não veremos essas coisas numa próxima temporada?
Cópia da DC? (alerta de spoilers)
Teve ainda duas cenas que me chamaram atenção pela similaridade com obras da Distinta Concorrência. A primeira, quando Cat se joga da janela esperando ser salva pelo Spider, exatamente como Lois Lane faz com o Clark em Superman 2.
E a segunda é quando Dirk Leyden (o Electro desse universo) escapa da prisão, ele dá um “beijo elétrico” em um dos guardas para matá-lo. Exatamente como a Mulher-Gato de Michelle Pfeiffer faz com o vilão no final de Batman – O Retorno.
Homenagem, cópia na cara dura ou só coincidência? Vocês decidem.
PB ou colorido?
Uma das melhores sacadas do Prime foi disponibilizar duas versões a serem assistidas: preto e branco ou colorida. Para entrar no clima noir, eu sugiro muito ver em pb. A série faz um uso de luz e sombras muito legal, principalmente nos primeiros episódios, que só é possível de ser apreciado nessa versão.
E talvez pelo fato de eu ter visto a versão pb primeiro, tenha estranhado muito a versão colorida. Achei a paleta de cores escolhida muito “clara”, destoando bastante do clima “noir”. Pensei em duas soluções que poderiam ter sido melhor trabalhadas.
A primeira delas seria abraçar o lado “sombrio” mesmo, num tom mais na linha do Batman de Tim Burtom, que eu acho que teria mais a ver com a proposta, mas aí as comparações também seriam inevitáveis.
A segunda, seria abraçar o brega, o colorido, remetendo aos quadrinhos antigos, como muito bem o fez o filme do Dick Tracy de 1990. Ternos coloridos, cenários com cores chapadas, vilões deformados (que vem de encontro com a caracterização adotada). Obviamente, isso teria de ser muito bem trabalhado para não ficar cafona demais.
Em resumo…
A série vale ser assistida, mas com baixas expectativas. E como eu disse no começo, é mais uma versão do Aranha noir que se sobressai sobre os quadrinhos (embora, como já disse, a régua também acabou ficando bem baixa).
Gosto muito da versão do jogo Shattered Dimensions, que acabou adotando essa solução mais “sombria”: suas fases são coloridas, mas mais com uma paleta mais escura que dá tom àquele universo.
A versão das animações do Aranhaverso também é bem legal e agora Nicholas Cage dá o tom para a versão live action. Esperamos ver mais dela.
