Dexter: uma análise

dexterE finalmente acabou. E você fica se perguntando como pode, aquela que já foi uma das maiores séries da tv, ter tido um final tão medíocre. Bem, venha comigo e vamos analisar juntos. Obviamente que contém spoilers fortes, então se você ainda não viu até o fim, melhor nem ler.

Já falei de Dexter aqui e aqui, mas esses posts estão tão desatualizados que acho que vale a pena dar uma recapitulada geral. Primeiramente, se fosse para resumir a série toda com um único tema, eu diria que o tema é: “Pode um serial killer ser humano?”. Pode ele ter sentimentos, envolver-se emocionalmente e quiçá, um dia, curar-se de sua fome insaciável?

Não obstante a isso, também acho que cada temporada teve seu próprio tema, a saber:

– 1ª Temporada: Família
– 2ª Temporada: Amor
– 3ª Temporada: Amizade
– 4ª Temporada: Inimizade
– 5ª Temporada: Redenção
– 6ª Temporada: Religião
– 7ª Temporada: Fraternidade
– 8ª Temporada: Maternidade

Talvez eu não tenha sido feliz na escolha das palavras para definir cada temporada, mas não se preocupe, logo tudo vai ficar claro. Antes de revisitarmos cada uma, no entanto, cabe dizer que as quatro primeiras são simplesmente EXCELENTES. É de uma qualidade ímpar no que diz respeito a roteiro e atuações, o que fez da série famosa.

O problema veio depois. A quarta temporada é tão boa que ficou muito difícil para os produtores conseguirem superá-la. Daí pra frente foi só ladeira abaixo. Mas vamos com calma, nós chegamos lá.

– 1ª Temporada:

A série já começa como um soco no estômago. A primeira temporada é, naturalmente, sobre origens. E sobre família. As duas famílias de Dexter: a problemática biológica e a reconfortante de criação. Como tal, seu inimigo nessa temporada não poderia ser outro senão seu irmão, que acaba se revelando um serial killer como ele.

Aqui ficamos sabendo do brutal assassinato de sua mãe e a origem do Código de Harry, bem como tudo que levou Dexter a ser o que ele é. A temporada é tão boa que suas consequências repercutem durante toda a série.

– 2ª Temporada:

Quando a primeira temporada termina, você fica imaginando que em algum momento a Debra acabará caçando seu irmão. E eles nem esperam muito para isso acontecer: a segunda temporada já começa com a descoberta dos corpos que Dexter desova no oceano, o que traz o FBI diretamente para Miami.

Não bastasse isso, a vida pessoal de Dexter entra em turbulência com a chegada de Lyla, uma mulher perigosa que acaba sendo atraída pelo seu lado negro. Dexter fica dividido entre ela e Rita, mas logo descobriria que Lyla não é flor que se cheire. Há quem diga que essa é uma das melhores temporadas e não é à toa: cada episódio lhe deixa mais ansioso para ver o próximo.

– 3ª Temporada:

Agora já sabemos quem Dexter é, já acompanhamos sua infância e adolescência. Passado o tempo de definições, é hora de explorar terreno novo. Voltamos ao tema principal da série para entender o tema desta temporada. Já sabemos sobre seu irmão. Já sabemos que é muito complicado que ele se envolve verdadeiramente num relacionamento amoroso. É hora de perguntar, contudo: “É possível que ela tenha um amigo?”.

É nesse cenário que surge Miguel Prado. Um homem que vai, pouco a pouco, ganhando a confiança de Dexter, até que ele lhe revele seu lado negro. Em um instante, os dois estão envolvidos e acabam se tornando parceiros no crime. Contudo, Miguel não tem o Código de Harry para guiá-lo. E é aí que as coisas complicam.

Descobrimos que quando dois serial killers se tornam amigos, coisa boa não pode vir disso. Há conflitos de interesse e um deles acabará causando problemas para o outro. Miguel era um excelente manipulador e acabou usando Dexter para descobrir os “meandros” de se tornar um criminoso. Quando este descobre o que houve, entretanto, chega a hora de desfazer a amizade.

– 4ª Temporada:

Certo, Dexter já enfrentou seu irmão, uma amante e um amigo. Mas até agora ele não teve um antagonista à altura, alguém com quem ele não tenha relação alguma e que realmente lhe desse trabalho. Um verdadeiro… inimigo. É aí que surge Trinity, ao mesmo tempo em que Dexter se casa com Rita e tem um bebê pequeno. Ele está constituindo uma família de verdade, mas eles se tornaram mais do que um mero disfarce para ele.

O problema é saber lidar com isso. Então, ao invés de matar Trinity na primeira oportunidade, ele decide aprender com ele quando descobre que ele vive com sua família há anos. O que acaba justificando o jogo de gato e rato que os dois se envolvem durante toda a temporada, mas sem parecer forçado.

No entanto, eventualmente Trinity descobre a verdadeira identidade de Dexter e isso tem consequências. É aí que algo inesperado ocorre e seu inimigo acaba matando Rita, sua esposa. Dexter encontra o filho numa poça de sangue da mesma forma que Harry um dia o encontrou no contâiner onde sua mãe morrera.

– 5ª Temporada:

Iniciada imediatamente após a quarta, essa temporada mostra um Dexter perdido, sem rumo, buscando por redenção. Ele conhece Lumen, uma mulher que está numa situação muito similar à dele, também buscando por redenção. Ela fora sequestrada e seria morta por um grupo de bandidos. Depois de resgatá-la, Dexter decide ir atrás dos canalhas, não apenas para ajudá-la a se vingar, mas também numa tentativa de alcançar a supra-citada redenção.

Talvez por termos um Dexter nessa situação essa seja a temporada mais diferente de todas. Ela é esquisita, não vemos mais o velho Dexter seguro de si e sem emoções. Ele se deixa levar pelo luto, comete erros estúpidos e está o tempo todo à flor da pele.

Mesmo porque o Detetive Quinn é o único que não comprou sua versão da morte de Rita e passa a investigá-lo incessantemente. A temporada não chega a ser ruim, mas como eu disse no começo, perto da última, fica há anos-luz de distância, no quesito de qualidade.

– 6ª Temporada:

Aproveitando os rumores que diziam que o mundo acabaria em 2012, os produtores decidiram fazer uma temporada voltada a religião. Novamente, voltando à questão principal sobre a possibilidade de um serial killer se tornar humano ou não, a pergunta da vez é: “Um serial killer pode seguir alguma religião?”.

Dexter é ateu, mas não porque pensou muito à respeito e chegou à conclusão de que Deus não existe. Ele simplesmente nunca ligou muito para o assunto, já que teve o Código de Harry para guiá-lo e isso sempre foi o suficiente para as suas necessidades. Mas agora ele se depara com essa questão, já que tem um filho para criar e há outras forças em movimento que envolvem o assunto, como o “Doomsday Killer”.

Diferente das outras temporadas, onde o tema é um pouco sutil, nesta aqui o tema principal está presente a todo momento. Tanto o lado bom da religião – que pode regenerar um criminoso, por exemplo – quanto seu lado ruim – como o fanatismo exagerado que pode inclusive matar pessoas – é abordado.

Essa é uma temporada bastante controversa. Eu, particularmente, gosto bastante dela, mas há gente que odeia. Aqui temos o velho Dexter de volta em sua melhor forma. O maior problema, ao meu ver, são os episódios finais, onde voltamos a ter um jogo de “gato e rato” entre Dexter e seu antagonista. Só que desta vez não temos uma justificativa plausível para isso, como foi o caso de Trinity. E as desculpas que os roteiristas arranjaram para deixar o Doomsday Killer constantemente em fuga me pareceram forçadas demais, o que começa a revelar problemas de roteiro que nunca houveram antes.

Ainda assim, acho que a série se manteve, até aqui, num nível razoável de qualidade, sendo seu final altamente impactante. O problema vem nas temporadas finais.

– 7ª Temporada:

A sexta termina com Deb descobrindo que Dexter é um serial killer. Então, se você perceber, toda a temporada acaba se centrando mais nela do que no próprio Dexter. Quais os efeitos que essa descoberta tem sobre ela. Chamei o tema desta de “fraternidade” justamente por causa disso, uma vez que foca no relacionamento dos dois irmãos.

Contudo, volta a surgir a possibilidade de Dexter envolver-se num relacionamento amoroso quando é apresentado a Hannah McKay. Em suas próprias palavras: ela não ignora seu lado negro como Rita, nem é atraído por ele como Lyla. Os dois se completam.

Ao mesmo tempo, Dexter se envolve com um pessoal nada amigável da máfia ucraniana e isso dá o tom da temporada por boa parte do tempo. E ela vai muito bem até os últimos três episódios. De repente, o mafioso-antagonista morre e ficam três episódios restantes para mera encheção de linguiça.

Ainda, temos a LaGuerta investigando incessantemente Dexter e Debra, convencida de que ele é o Bay Harbor Butcher (apelido dado a ele na segunda temporada). Tudo acaba culimando num final tosco, na qual Debra acaba atirando em LaGuerta e matando-a. Foi um desfecho previsível e que descaracterizou totalmente a personagem.

– 8ª Temporada:

Os efeitos da descoberta que Deb fez no final da sexta temporada, bem como sua decisão de matar LaGuerta no final da sétima, continuam repercutindo. Ela sai da polícia e vive numa vida marginal, na qual acredita merecer ser punida, o que causa muitos problemas a Dexter no começo dessa última temporada.

Ele também conhece a Dra. Vogel e descobre que foi ela quem criou o Código de Harry, fato que por si só já causa estranheza, mas tudo bem, é plausível. É por isso que decidi chamar o tema dessa de “maternidade”, pois ao mesmo tempo em que Dexter descobre essa improvável “tutora”, ele mesmo tem a chance de se tornar o tutor de um novo serial killer.

Na verdade, o tema principal da série – “Pode um serial killer ser humano?” está presente a todo momento aqui, de forma que os temas de todas as outras acabam sendo revisitados. Hannah volta a aparecer, o que nos remete à sua vida amorosa. O relacionamento com Deb se complica, o que traz à tona o tema da fraternidade novamente. Há a possibilidade dele formar uma família com Hannah. E quando ele finalmente decide deixar Miami, fica o sentimento de estar perdendo verdadeiras amizades.

O problema aqui são as forçadas de barra e as ridicularidades (inventei esse termo agora). Se, desde a quarta, a série já vinha apresentado certas falhas de roteiro, aqui parece que os roteiristas resolveram chutar o pau da barraca de uma vez. Há uma cena em que estão reunidos para jantar Dexter, Hannah, Dra. Vogel e o seu novo “tutorando”. A coisa toda é tão absurda que você chega a dar risada, parece uma paródia mal-feita das famílias de super-heróis, como Capitão Marvel, Batman ou Superman. Temos o Superman, a Supergirl, o Superboy e até a Supermãe. Só faltou o Supercão.

Fora probleminhas menores de roteiro, o que me deu vontade de desligar e ir embora é a cena do penúltimo episódio em que Dexter finalmente fica frente a frente com seu antagonista, tem a chance de matá-lo, e resolve deixá-lo ir. ELE SIMPLESMENTE LARGA TUDO E VAI EMBORA! Porra!

E a justificativa para isso é ridícula: “Percebi que não preciso matar você, minha fome não existe mais”. Na boa, quantas pessoas na série ele matou e não precisava? A começar pelo próprio irmão, na primeira temporada. Ele mesmo diz, antes de cortar-lhe a garganta: “Você não é um troféu, mas eu preciso te matar, ou Deb nunca estará segura”. Aqui era a mesma coisa, mas ao invés disso, deixou o cara ir.

E a Deb larga o cara lá sozinho e fica conversando. E aí o agente do FBI chega no local e – mesmo tendo fotos do bandido espalhadas por todo lugar – solta o cara achando que ele é a vítima. Aí é demais. Nesse ponto achei que o caras perderam a mão de vez.

Ainda, uma coisas que sempre incomodou um pouco em toda a série é a facilidade com que Dexter consegue as coisas. Não existe lugar onde ele não consiga entrar, não existe um assassino que ele não consiga provas para poder matá-lo, ele sempre está dez passos na frente da polícia e ninguém nunca vê as merdas que ele faz. E nessa temporada todos esses pequenos “errinhos”, que até podem ser relevados nas demais, são usados à exaustão,  de forma que fica difícil de engolir algumas coisas.

Só pra citar um exemplo, ele rouba o corpo de Debra do hospital na moral, em plena luz do dia e ninguém vê! Tudo bem que estava uma confusão no momento, mas sério… NINGUÉM VÊ ISSO??? Só eu acho esquisito essas coisas?

E aí, tudo bem… vendo todo o mal que causou, ele decide deixar pra trás as pessoas que ele ama e forjar sua morte. Até acho a decisão plausível, mas teria outras formas mais dignas de acabar com a série. E a cena final é totalmente desnecessária. Poderiam ao menos ter deixado algo no ar… mostrar alguma notícia de que criminosos estão desaparecendo em outra região dos EUA, ou sei lá, algo nesse sentido. Mas ele sozinho, barbudo e carrancudo numa cabana, trabalhando como lenhador, não faz o menor sentido.

Voltando, então, à pergunta-tema da série: “Pode um serial killer ser humano?”. No caso de Dexter, poder-se-ia dizer que sim. Ele teve o Código de Harry para guiá-lo. Com o tempo, passou a desenvolver emoções, passou a realmente envolver-se com as pessoas ao seu redor. E essas emoções acabaram por nublar a sua fome, como ele mesmo admitiu perto do final.

Contudo, aparentemente, mesmo tendo a chance de ser humano, ele decidiu pelo outro lado. Ele entendeu que seu lado negro sempre dominará de alguma forma e isso prejudicará aqueles que ele ama. E com isso, aquela que já foi uma das melhores séries da tv termina.

E termina de forma medíocre, indigna, muito aquém do que se esperava.

p.s. – Ah, e o Harry indo embora, só faltou ele entrar numa porta de luz, assim como o John Wayne no final de Preacher. Aí fechava com chave de ouro…

Anúncios

Deixe uma resposta