Um final indigno para Daniel Craig.

Primeira sessão de cinema depois da pandemia. Eu e a esposa com as duas doses, vamos lá… sessãozinha vazia, tínhamos a sala só pra gente pra curtir esse filme que deveria ter sido lançado ano passado e fora adiado, o que só fez aumentar a expectativa. E expectativa é aquela coisa… nunca deixe ela aumentar muito, porque quanto mais alta, maior a decepção.

Daniel Craig havia feito sua estreia no excelente Casino Royale de 2006, inaugurando uma nova era e mostrando que o “007 da nova geração chegou chegando”. Sua sequência, Quantum of Solace, segue sendo o pior de toda essa nova leva de filmes enquanto que o próximo, Skyfall, é o ponto alto, sem sombra de dúvidas. Spectre é um filme mediano que divide opiniões, eu até que gosto, mas poderia ter sido muito melhor.

E agora, Sem tempo para morrer falha miseravelmente em ser uma despedida digna, por uma série de motivos. Blofeld, que no filme anterior havia se revelado como a grande mente por trás da trama dos filmes anteriores, aqui acaba sendo relegado a segundo plano. Ora, no filme derradeiro de James Bond, não se espera nada menos do que um confronto épico entre o herói e seu nêmese, o que, lamento dizer, mas não ocorre.

Não apenas não ocorre, mas na única cena em que os dois se encontram, o diálogo soa bem artificial e sem ânimo algum, bem longe dos tradicionais colóquios de Bond contra seus vilões.

“Ok, temos o ótimo e oscarizado Rami Malek”, você pode pensar. Mas já lhe adianto que o ator aqui é subaproveitado em um papel medíocre, cujas motivações não são, nem de longe, construídas ou mesmo explicadas. O filme bate o tempo todo na tecla de que Madelaine esconde um “grande segredo” envolvendo o vilão, o que parecer ser o motivo pelo qual as coisas estão acontecendo. Mas não há segredo algum, já que o espectador já sabe do que se trata, a menos que tenha dormindo nos primeiros dez minutos de filme, o que, admito, não seria de se estranhar.

Some-se a isso o papel de Lashana Lynch, que gerou toda a “polêmica” quando saíram os boatos de que ela seria a possível seguidora de Bond. O filme todo você fica esperando a personagem mostrar a que veio, e apesar dos esforços da excelente atriz, isso nunca acontece e sua personagem está bem longe de ser uma Jinx (lembram-se de Hale Berry nem Um Novo dia para Morrer?), não fazendo diferença alguma na trama.

Bem diferente de Ana de Armas, que interpreta Paloma, por exemplo. Logo que ela aparece em cena você acha que vai ser uma vergonha alheia, mas acaba tendo uma grata surpresa e a sequência toda acaba gerando talvez a parte mais divertida do filme todo. Pena que logo depois ela se despeça, pois poderia ter trazido mais bons momentos nessa película bem mediana.

Há momentos emocionantes, sim, como a morte de um personagem no meio do filme, pelo qual Bond fica de luto por 5 minutos, e segue sendo um exército de um homem só, matando 50 capangas sem sofrer nenhum arranhão. Aliás, isso foi uma coisa que me incomodou e me peguei no cinema pensando “mas por que isso está me incomodando? Isso é 007, já é esperado esse tipo de coisa, todos os filmes são assim”. Aí que me caiu a ficha e percebi que essa franquia já deu o que tinha que dar.

Mesmo os filmes de ação tem seu limite para violar a verossimilhança e acho que esse limite, hoje em dia, está bem mais baixo, quando temos caras como John Wick nas telas, pagando de fodão e matando todo mundo sozinho, mas sofrendo miseravelmente no processo.

Mas enfim, temos uma trama completamente sem graça e sem grandes reviravoltas, caindo no lugar comum de filmes de espionagem. Triste ver isso acontecer na franquia que praticamente inaugurou o gênero, mas essa falha está diretamente ligada às motivações do vilão. Se a motivação tivesse parado na vingança, pura e simples, ainda assim daria para ser construído um ótimo filme. Mas ele tenta ir além, não convence, e acaba gerando um terceiro ato insosso, de maneira que neste ponto, você só continua assistindo pela inércia mesmo.

O próprio Daniel Craig parece estar de saco cheio, sem a mínima vontade de estar na pele de Bond mais uma vez. Poderia ter tido um fechamento como o do Cavaleiro das Trevas Ressurge que, apesar de ser um filme bem meia boca, traz uma conclusão digna para o Batman.

Sem Tempo para Morrer nem isso consegue.

Um comentário em “007: Sem Tempo para Morrer

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